isso não é um blog. é um blook...........
crédito da obra: lavanderia, nanquim sobre papel, 2008 Philippe Bacana

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Buenos dias, Passarão | 13/11 em Sorocaba-SP


Óleo, acrílico, nanquim, café, urucum, jornal, giz. A obra do Philippe Bacana, 22, é uma reorganização ousada das categorias do imaginário. Como Miró e Pollock, põe o quadro no chão, e com música e café adentra noites sem esquecer que tem que acordar cedo, o trabalho convencional ainda o chama todas as manhãs.
Essa é a sua primeira exposição individual em circuito comercial, onde trabalhos de 2007, acrílico e óleo, figuraram ao lado de quadros à pastel e selante, e café e urucum. Em meados de 2008, o artista, ex-estudante de ciências sociais, criado na pequena cidade do interior de São Paulo - Artur Nogueira - começa a trabalhar o nanquim, após um rápido curso de gravura no Instituto Tomie Otake.
Noções de quebra de plano, e de invenção de formas para uma nova figuração e narrativa já apareciam em sua obra, o contato com o nanquim dá força à essa vertente. Bacana traz à tona todo um mundo de personagens fantásticos, meticulasamente sérios e compenetrados nas suas funções - seringueiros, juízes, rueiros e animais. As linhas finas quase inimagináveis ao traço da mão, encadeiam complexas tramas onde uma natureza viva feita de objetos outros encena com esses personagens e enriquece as obras, onde a linha entre figura e fundo desaparece.

Influenciado e influenciador de alguma literatura contemporânea, Bacana foi motivo de poemas ainda na sua fase com o giz pastel - que inauguraram a revista de artes Maná Zinabre. Executou murais onde a poesia e objetos cotidianos abriram a possibilidade de interferência no mundo puro da pintura.
Ainda em 2007, o quadro O parlamento, reação à série de poemas O parlamento, inaugurava uma outra ilustração para a literatura: não são objetos ou cenas descritas nos poemas que vem à luz da obra, mas construções fruto das reações do artista, assim literatura e pintura atuam em relação de complementaridade e ao mesmo tempo autonomia.
O livro Lagarta o faz pensar em casulos, esses viram carretéis, e dos carretéis sai sua primeira série concisa em nanguim, onde seres, plantas e objetos do mundo tangível e da imaginação aparecem enrolados nas suas linhas finas.
Em 2008 e 2009 essa relação se intensifica e o artista faz várias capas de livretos, se inserindo no contexto da literatura contemporânea descartável e ao movimento de poesia de rua, principalente do Rio de Janeiro, e se torna principal ilustrador do selo Peri Go.

A relação de Philippe Bacana com as artes plásticas é uma relação de contaminação, onde em momento algum há a preocupação de estabelecer divisões entre a figuração e o abstrato, entre o hermético e a narrativa, entre o não-obejto e as categorias conhecidas. Bacana é um artista do limiar, um fronteiriço, suspende e torna concreto o chão onde pisa quando quer.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Entrevista com Michel Maffesoli: "a crise é um assunto chato"

Gente, é tudo recortado do JB, coisa boa, turma do JB, obrigado por não processar blogueiro que mostra o bom trabalho de vocês!

de Bolívar Torres, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Você sabe, fui obrigado a me caricaturar”, diz um sorridente Michel Maffesoli, circulando pelo amplo salão do Copacabana Palace, onde encontrou o Jornal do Brasil na última sexta, logo antes de sua palestra na Casa do Saber, para o seminário Panorama do Pensamento Francês Contemporâneo. Provocador, o sociólogo e professor francês admite que precisa forçar o traço, exagerar seus argumentos, quando quer agitar o comodismo intelectual que toma conta das academias. Expoente do pensamento pós-moderno, Maffesoli acredita que a elite intelectual – universidades, imprensa, classe política – continuam presos aos velhos pilares da modernidade. Não conseguem acompanhar as mudanças de paradigmas do mundo emergente, dominado por outros valores: hedonismo, energia voltada ao presente, esgotamento das instituições...

Na entrevista, o sociólogo desmonta as certezas do pensamento oficial e fala do lugar do Brasil na nova configuração mundial.

Estamos em plena crise. A mídia não para de falar de uma crise financeira, política, de valores... Em seu último livro 'Apocalypse', porém, o senhor prefere a palavra “apocalipse” ao termo “crise”, mas usando-a em seu sentido etimológico, ou seja: a revelação de algo novo. A mídia e as instituições ainda não entenderam que este momento pode ser, na verdade, a gestação de novos paradigmas?

A crise é um assunto chato. Sou daquelas pessoas que, para provocar, já vai logo dizendo que não existe crise (risos). Se fomos reduzir a crise a uma dimensão econômica e financeira, é claro que ela existe, e que tem consequências. Mas para mim o que interessa de fato é a emergência de novos paradigmas. Quando há uma passagem de um momento a outro, como acontece agora, surgem crateras em todos os lugares. É um pouco como um garoto quando chega a adolescência. Ele está bem consigo mesmo, em harmonia com seu ambiente, e de repente começa a ficar com espinhas, vê mudanças em seu corpo, começa a repensar sua relação com si próprio e com os outros, sem que haja razão precisa para isso, a não ser uma passagem a outro estágio. Michel Foucault e outros pensadores mostraram que a cada quatro séculos, mais ou menos, acontece um cansaço, uma saturação, uma usura das maneiras de viver e pensar. Estamos vivendo uma destas usuras. Algo como “a maquinaria funcionou, agora vamos passar a outra coisa”.

Que novos paradigmas são esses?

Ao olharmos as práticas da juventude, percebemos que há vitalidade, um prazer de ser, um prazer do corpo, uma dimensão criativa da existência. O valor do trabalho já não é mais um fim em si, mas algo ligado à criação. Antes, o trabalho era o percurso para realizar-se. Hoje esta realização passa por uma dimensão mais lúdica. A modernidade era o positivismo, o mito do progresso: casa, futuro, desenvolvimento. Na pós-modernidade, essa projeção dá lugar ao presente. Não é a primeira vez que estas mudanças acontecem. O fim de UM mundo não é o fim DO mundo.

Ligados ao presente, os jovens de hoje já não estão mais presos à ideia de 'projeto'?

Eu não sei quais são seus debates no Brasil, mas na França a palavra “projeto” é empregada sem parar, em todos os níveis. Tudo é projeto! Já escrevi que quando não estamos convencidos de alguma coisa, empregamos uma palavra repetidamente. Trata-se de uma espécie de encantamento: cantamos alguma coisa até convencermos os outros e a nós mesmos. As relações amorosas, por exemplo. Ninguém fala mais de amor do que um casal que vai se separar. Falam de amor para salvá-lo. O mesmo acontece com os “projetos”. Mais se fala, menos há.

Mas a falta de projeto não significa, necessariamente, falta de ação e criação, certo?

Existem grandes sociedades que se concentraram no presente, no hedonismo, no prazer do momento... O engano sociológico é que havíamos pensado a modernidade como uma energia que se projetava. A partir do momento que se vê que não há mais projeto, logo se pensa que não há mais energia. Mas só porque não se projeta para o futuro não significa que não se tenha energia. Mobilizando uma energia para o presente, podemos fazer uma pessoa trabalhar 18 horas por dia! (risos) É uma energia que não está mais distante, no progresso. Ela está dentro – no ingresso, na alegria do mundo.

Existe um abismo entre a realidade pós-moderna e as nossas instituições?

Quando há grandes mudanças, é preciso um tempo para tomar consciência. Nesse caso, há ainda uma complicação adicional, porque aqueles que têm o poder de falar sobre as mudanças (jornalistas, intelectuais, políticos) continuam com os valores antigos da modernidade. Neste sentido, a imprensa, a universidade e a vida política não acompanharam a vida real. Toda sociedade precisa de uma elite intelectual. Mas esta elite deve estar em sintonia com os valores de seu tempo. A nossa, infelizmente, ficou nos mesmos sistemas modernos do século 20.

Em seu livro 'A parte do diabo', o senhor fala em relativismo e politeísmo de valores, e afirma que a vida social não pode mais ser compreendida como a expressão de um bem único. Mas a disputa entre o Ocidente e o Islã não seria uma guerra entre dois valores absolutos?

Já escrevi em algum lugar que a querela entre Bush e Bin Laden é uma briga conjugal. Ambos têm os mesmos valores, são monoteístas, acreditam em algo universal e querem impô-lo ao mundo. Mas o que muita gente esquece é que o Islã hoje faz o que os cristãos fizeram há cinco séculos. O Bin Laden do momento teve predecessores cristãos, alguns piores. Mas, apesar disso, vivemos o fim da universalização. A disputa entre os EUA e Bin Laden é o que em francês chamamos de “combat

d'arrière garde”. É quando um exército percebe que a guerra está perdida e fica na retaguarda lutando, sem mais nada a perder, partindo para uma última tentativa. Normalmente são as brigas mais sangrentas. Tenho um sentimento de que se trata de um pega-pra-capar do velho universalismo.

Por sua origem multicultural, Obama não poderia ser uma ruptura definitiva com esta universalização de valores?

Obama é simpático justamente por vir desta mistura. Sua eleição pode abrir os espíritos em relação aos “pequenos brancos” como Bush ou Clinton, fundamentalmente mais arrogantes. Obama, ao contrário, tem um lado mais humano. Mas evito falar por não ter certeza de que se possa esperar algo dos EUA, que representam o extremo ocidente, os valores ocidentais em decadência. Houve uma hegemonia americana, assim como houve uma europeia, mas não é olhando para eles que veremos o mundo emergente.

Os fenômenos pós-modernos, como a saturação política, o esgotamento da razão, a fragmentação social em tribos, poderiam ser vistos como uma volta a certos sentimentos primitivos, misturados a uma tecnologia sofisticada?

É verdade que tudo isso renova com atitudes arcaicas. Porque, na verdade, a pós-modernidade não é mais do que um retorno a uma pré-modernidade, só que não em sua totalidade. Não estamos mais confrontados à flecha iluminista do progresso, nem ao círculo nietzcheniano, mas sim à espiral. Vemos um monte de coisas antigas voltar, com suportes tecnológicos, como, por exemplo, a internet. Então, sim, há emoções e outras atitudes arcaicas, mas as encontramos em blogs, flashmobs, fóruns de discussão...

O senhor disse que o Brasil é um laboratório da pós-modernidade. Por quê?

Cometi um erro dizendo isso, porque acredito fundamentalmente que seja verdade (risos). Na verdade, não gostaria de passar por um estrangeiro que fica opinando sobre o país, como certos colegas, que passam 10 dias no Brasil e já acham que conhecem tudo e já podem dar lições aos brasileiros. Mas a primeira vez que vim aqui foi em 1991 e me senti bem logo de cara, foi amor à primeira vista. Pessoalmente e intelectualmente. Percebi que havia uma série de pesquisas que colocavam em valor as características pós-modernas, como a concentração no presente, a visão do corpo não apenas como instrumento de produção, enfim, a razão sensível, que não é a negação da razão, mas um enriquecimento dela. E, para dizê-lo em termos lógicos, o Brasil é um país com dimensão oximórica – uma figura de retórica que eu uso para definir ideias opostas, que parecem excluir-se mutuamente mas que, no fim, se combinam, como num curto-circuito. Mais ou menos como “monstro delicado”.

E no que diz respeito à estetização do cotidiano, outro tema que lhe é caro, temos nossa arquitetura, cheia de curvas...

Sim, mas infelizmente vocês tiveram influência de Le Corbusier e da Bauhaus, uma arquitetura reduzida à funcionalidade. Por outro lado, no caso do Brasil a funcionalidade foi apagada por uma exageração do puro e simples tropical. Mais simplesmente, reduzir os ângulos. A modernidade é o ângulo. A pós-modernidade é o barroco.

17:47 - 07/11/2009


fonte: Jornal do Brasil, foto pensomoda.com

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

A rua tempo

Na Voluntários passo
como eles
voluntário

há quanto tempo não me ligo
três nove setenta
quatro três sete cinco

mais que marginal
imaginário
ser a terceira margem do rio

**

Ao quererem-se nos Inválidos
invalidam-se e somem

e os sonhos bons
quem dera os fosse
são segundos

os primeiros
neles e no tempo
se acanham

e perduram
e perduram
e perduram

**

Os muros da escola atentos ao cego que voa
Nuvem bailarina no mar de eutanásia dos tempos

**

A Passagem aberta
doce
de portais de amêndoa

em raios da hora nova
é nos novos arranhões

o sono solda
tempos breves

e outubro passa
como música
no ônibus

poemas fruto das ruas Voluntários da Pátria, Inválidos e Passagem do Rio de Janeiro

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Poema simples XIV (de um em um mês como o salário)

vinte e dois de dez

a passagem aberta
doce
de portais de amêndoa

em raios da hora nova
é nos novos arranhões

o sono solda
tempos breves
e outubro passa
como música
no ônibus

esse é o terceiro curtinho da série de ruas, os outros dois estão em:
poema simples XIII e poema simples XII

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Piratão, em Porto Alegre

http://www.youtube.com/watch?v=jeCDN_i9kTE

para saber mais sobre, clique e leia entrevista com alex topini: Piratão, a invenção da cópia