crédito do desenho no cabeçalho: dos meses duro, nanquim sobre papel, 2010 Philippe Bacana

terça-feira, 6 de março de 2012

Casa das Rosas, ingerência ou verba curta?

Acho que devemos mesmo nos posicionar sobre o episódio em que Dolhnikoff avalia na revista Sibila a Casa das Rosas. Foi criada uma indigestão que nem sei a quanto tempo antes já existia, pois tanto os gestores e realizadores desse espaço físico de e para poesia, um dos poucos no Brasil, tanto os editores e o próprio autor do artigo avaliação se sentiram lesados. Como diria Clarissa Diniz, também editora de revista, só que relacionada às artes visuais, "brigamos muito pouco hoje em dia, e por não sabermos brigar, quando brigamos, brigamos errado". Sei que São Paulo é rachada em mil e que seus poetas também refletem a organização da cidade, se reúnem de cinco em cinco e montam revista, festejam, e saem por aí comemorando o papel que de fato cumprem para a cultura nacional, e digo isso sem qualquer ironia. Esses grupos já fragmentados diferem em tipo de poema, em objetos de estudo, em lugares que frequentam e por aí vai. Por isso não é absurdo que surjam querelas entre eles e que, por quê não?, não se gostem. Mas o que está acontecendo agora é um pedido de destituição do gestor da Casa das Rosas de um lado e um pedido de "Fica Frederico" de outro. As piadas que pudessem estar nas entrelinhas dos textos que motivaram a querela pública antes de abrir um debate franco estão pedindo destituições, demissões e outras rivalidades de internet.
Nem acho que o Luís Dolhnikoff ataca as pessoas citadas no texto, Frederico Barbosa, seu gestor e poeta, e Claudio Daniel, poeta e realizador de atividades culturais na casa. mas ressalto que são realmente escolas que já estão em conflito tem algum tempo. O que Luís não comenta no texto, e acho estranho, é o orçamento da casa, ele não citou em momento algum que o tamanho do orçamento poderia interferir no andamento das atividades. Se o orçamento é pequeno é até justo que seus próprios gestores e amigos próximos estejam sempre lá, propondo atividades para que a casa não fique às moscas, o que não justifica o monopólio desse grupo na realização das atividades que a casa promove, e nem acredito que seja um monopólio de fato, mas não deixo ainda assim de acreditar que se a Casa é pública ele deve dar conta de apresentar ao públicos as tramas que constroem a poesia paulistana, paulista e brasileira, na medida do possível e mesmo quando se tratar de inimigos pessoais - um gestor não deveria, por elegância e até tapa de pelica, deixar de convidar seus "oponentes", nem tampouco os oponentes deveriam negar o convite. Mas se o orçamento da casa é grande, aí sim temos um problema, pois os gestores se beneficiariam de uma máquina pública para ganhar duas vezes, como gestores e como proponentes de atividades. Uma ótima forma de saber se Luís pode ser levado a sério é abrindo as contas da Casa das Rosas, o público, pequeníssimo, interessado na poesia de São Paulo ficaria feliz em saber se até com poemas se faz caixa dois e se não se as denúncias de Dolhnikoff são infundadas caso a casa não tenha um centavo.
Mas para além disso tudo quero ver qual órgão público não é criticável, ou qualquer órgão cultural, mesmo privado, todos são passíveis de críticas e é melhor que sejam, pois é da insatisfação que nasce mudança e, possivelmente também pode surgir dela, a participação dos descontentes.
Mas um ponto que Dolhnikoff passou mesmo longe foi a crítica à oficina proposta por Marcus Pezão. Criticá-lo é desqualificar como um todo e de uma vez a chamada "poesia periférica" que faz escola por ter dado voz de novo aos poemas, fazendo os autores falarem e falarem bem por sinal, e fazendo o poema chegar onde nem o Estado vai. Disso, Dolhnikoff, infelizmente ficava clara uma deficiência do texto, se são dele, do autor, que ignora a escola mais vigorosa, e se não isso, ao menos a mais numerosa das escolas de poesia do Brasil atual, a da poesia de rua, de sarau na quebrada, a do conhecimento do povo sendo produzido pelo próprio povo.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Girávamos
nos carrocéus Vermelho e Estéril.
As orelhas dobradas,
de papel pardo e barbante,
e os embrulhos de palha empalhassem o povo.
Nossos órgãos carregassem os dentes da Mulher Que Canta,
até tornarmo-nos só eu.

E me restou o pescoço
cada vértebra
fundindo o ranço
agudo da medula privada de amor.

O caminho é um pássaro minado
encerrando os bichos na burocracia da casa
apertando a carícia do peito contra a argamassa da língua.

E me restaram os mistérios anônimos da literatura
pois tomaram o estado e fiquei com a mulher,
o próprio suor romântico calado.
pois cargos e os brasões apostaram num jogo de dardos

E me restou a losna, o boldo, o limão,
meu fígado de papel

01/01/2012

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

entrevista na tv brasil

queridos, faz uns dias gravei uma entrevista com a lili reis para o programa estúdio móvel da tv brasil, a entrevista será transmitida nessa quinta feira, amanhã, dia primeiro de dezembro. quem tiver com a tv por perto veja lá, acho que será engraçado. o programa estúdio móvel passa todo dia às 18h, e em http://tvbrasil.org.br/webtv/

um abraço forte e carinhoso

heyk

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

o passáro acrílico

.............o pássaro
.............acrílico

.............[o caratonelada
.........................fibroso em bulbos no bico,
.............seu sorriso de sala]

.............conta os fios nas penas
........estima quantos é por dentro
 [atomatado dos gânglios de febre]

..........................se enumera tantos,
..........................tantos:

..........................pássaro cáustico; 
..........................pássaro magnético; 
..........................pássaro vítreo.


.......................................tenta não ser menos
....................................................que um,
....................................................um só,
....................................................sem ninguém de nada

.......................................tão ronronando gato
..........................tão caçando colo nas árvores, no sol
....................................................nos bichos
.......................................no próprio voo, perguntando o ar

o pássaro acrílico é o de qualquer preço
cumpre justo o itinerário das sementes do dente de leão
..........................mas é estéril, não tem o trem de pouso

.......................................mudo

..........................desafinou todas as notas

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Viaduto da beneficência

curvo
de ser uma resposta lapidar para os vales,
o viaduto arfa

talhado [
seu calçamento polido nos pés dos transeuntes,
seus parapeitos baixos
.............], não é heroico,
é de menos medo

mas é curvo,
por não ser utópico, concreto armado


o viaduto da beneficência,
senil,
nos braços dos vergalhões,
é curvo,

doente de levar doentes
à encruzilhada íngreme
dos milhares de quartos portugueses de hospital