sábado

Mito é coisa fina, Maria!

O trecho que segue é do artigo Os xamãs e as máquinas de Pedro Peixoto Ferreira, que será publicado no livro Controles e descontroles | Ensaios sobre conhecimento, tecnologia e mercado, da Azougue que será lançado por esses dias.

O trago (do verbo trazer, com muita liberdade) aqui para discordar de mim. No ensaio entitulado saco | situação deriva escrito em 2008, trecho publicado no blog Maná Zinabre, aponto o surgimento da cosmologia e cosmogonia dos povos para dar conta de dois problemas essenciais: a organização do caos, no sentido de classificação do mundo em categorias; e a hierarquização de saberes e poderes, o que beneficiaria certos grupos dentro de uma sociedade em detrimento de outros. O trecho que segue aponta o surgimento dos mitos dentro de outras premissas e “finalidades”: para o Pedro, o mito seria antes uma tecnologia cosmicizante do que uma forma de poder. Publico aqui os textos para aumentar os elementos para o debate a cerca das tecnologias do humano através dos tempos. Após o trecho do Pedro, segue um trecho do texto da minha autoria que citei. O tópico é para mostrar solidariedade (não precisa eu sei) ao Eduardo Viveiros de Castro na máxima “o chocalho do pajé é um acelerador de partículas”.

"O mito como máquina de subjetivação é o "ponto de fuga universal", ponto de vista do sujeito humano para o qual convergem todas as perspectivas. O relato de um mito, ou a sua modificação, seriam melhor compreendidos, se, para além de esforços intelectuais de classificação do mundo (e.g. Lévi-Strauss, 1962) ou disputas por propriedade ou prestígio (e.g. Harrison, 1992), eles fossem vistos como instâncias em que o homem, sentindo-se perto demais do fluxo descontrolado e pressentindo a "catástrofe" do caos iminente, se transporta para este "ponto de fuga universal", perspectiva privilegiada das coisas e de suas relações que lhe permite conduzir o processo de cosmicização necessário à ação. Trata-se de uma técnica, principalmente, pois uma vez instalado nesta perspectiva o homem é capaz de dar início a uma sequência causal no mundo ao seu redor, que mais ou menos eficazmente conduzirá o vir-a-ser cósmico em sua tensão extática até a sua resolução. Apesar de já pressupor uma tecnologia, está técnica precisa ser por ela potencializada e direcionada. Assim, se a função do mito é conduzir (efetivamente) do caos ao cosmos, não devemos perguntar de onde surgiu esta técnica, visto que a pergunta já supõe algo do qual ela teria surgido, quando ela seria antes a origem de tudo. A técnica portanto, não surgiu de um mundo sem técnica (como se, num belo dia, o primeiro mito tivesse sido inventado), mas sim de uma ruptura sempre presente que, como num êxtase, simultânea e constantemente objetiva o mundo e subjetiviza o ser.” Os xamãs e as máquinas

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" O papel que os conjuntos simbólicos e de ordem tiveram na maior parte das suas aplicações foi o de impedir uma nova pergunta sobre um problema que já tinha sido resolvido dentro desses conjuntos de entendimento. As tentativas de dar ordem ao mundo fizeram com que as relações aparentemente suportáveis para a existência fossem aceitas e só fossem substituídas quando o que elas causassem fosse danoso à existência a ponto de não ser mais possível existir dentro dessas premissas. Assim uma faceta interpretativa de um conjunto de significados só é substituída se for contraditória dentro desse conjunto e principalmente se aqueles que detém a autorização para modificar essa faceta estiverem de acordo com sua modificação ou se por confronto forem substituídos junto com as facetas danosas.
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"O que aconteceu nos processos de desenvolvimento dos conjuntos de significados foi a justificação das facetas danosas pela criação de outras facetas interpretativas que davam sentido e finalidade aos motivos pelos quais esses danos deveriam ser suportados.
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"O que há daí em diante é a elaboração de significados para a existência de acordo com as finalidades daqueles que elaboram os significados, onde não se estendeu a todos os integrantes de uma sociedade o papel de desenvolver ou de substituir a ordem, regras, símbolos e significados de sua própria existência. Suspender as regras, significados e finalidades é dar de volta ao mundo o seu teor de absurdo – a possibilidade da abertura ao entendimento de novas finalidades e significados para a existência.” saco | situação deriva



imagem 1: isa - instituto socio-ambiental, etnia Araweté, Pajé Moinayärä (peye) em transe e o chocalho aray em cerimônia do cauim doce. Foto: Eduardo Viveiros de Castro, 1982.

imagem 2: isa - instituto socio-ambiental, etnia Asurini do Xingu, Xamãs extraindo doença de um bebê. Foto: Jacques Jangoux, 1978


5 comentários:

tomazmusso disse...

muito bom esse blog heyk, isso sim é tocar arte e discussão. boa!! to lendo, to lendo...

Victor Meira disse...

Bons textos nego. Gosto do ponto de vista do Pedro, que vê o Mito de um jeito "a priori".

Vejo quando você diz no Saco:

"...uma faceta interpretativa de um conjunto de significados só é substituída se for contraditória dentro desse conjunto e principalmente se aqueles que detém a autorização para modificar essa faceta estiverem de acordo com sua modificação ou se por confronto forem substituídos junto com as facetas danosas."

Mas mitos carregam inúmeras contradições internas, e se livram de muitas outras expandindo vias de interpretações, como um organismo em contínuo aperfeiçoamento. A cada ameaça as células de defesa se fortalecem. Ainda, acho pouquíssimo provavel que o homem tenha este poder sobre o mito. Antes, é refém e o influencia, o cria, atua dentro dele de forma muito pouco consciente. E então, os mitos padecem do jeito que nascem, mas o Mito (algo como a comparação entre "uma vida" e "a Vida") é uma existência em constante mutação.

Acho que existe uma convergência nos argumentos que citam os "propósitos" do Mito, em ambos os textos. Me parecem justos.

Perelêpepê.

FlaM disse...

Como se dizia nos anos 80, saudaçoes feministas, meu amigo!
Hj é 8 de março e só o que quero é direitos e ser excomungada!
Entre nessa onda!
http://palavrasquecaminham.blogspot.com/2009/03/frase-do-dia-excomungue-me.html

Faça um post!
Participe da comunidadeParticipe da Comunidade: http://bmail.uol.com.br/Main#Community.aspx?cmm=60071242&refresh=1
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http://www.ccr.org.br/a_iniciativa05_mar09.asp
bjs, f

Heyk Pimenta disse...

É victão, é tomaz, é dona flávia antropóloga também.

a coisa do mito me instiga bastante:
sempre sempre.

acho que foi minha primeira pergunta antropológica, antes de eu saber que dava pra estudar isso na faculdade:

numa viagem eurocêntrica disse a uns dez anos que "a ciência dos índios era a preguiça: em vez de investigar uma coisa, criavam um mito"

aí fui rindo com essa brincadeira e hoje tõ na área olhando pro troõ com um olhar infelizmente de poucos: não porque é um olhar especialmente e estudei muito pra isso, mas porque ela a antropologia também não é nada popular, e podendo escreve mais pra si mesma do que até pro próprio cara que é seu objeto de estudo.

É foda.

Flávia Muniz disse...

heyk:

me interesso pelo tema e curiosei pelo livro?
essa frase:
“o chocalho do pajé é um acelerador de partículas”.

estamos em contato
bj

crédito do desenho no cabeçalho: dos meses duro, nanquim sobre papel, 2010 Philippe Bacana