terça-feira

Ampolas

caros, vai aí áudio de poema novo Ampolas, é só clicar. Para não perdermos o exercício de produzir nós mesmos nosso ritmo, vai também o poema em escrito:


nas ampolas dos monges
na canção entusiasta dos gatos
no túnel das traças nos livros
está o aguardo rançoso dos corpos

são duas romas em chamas
suando seus poros de império

agarrado nos chifres e crinas de si
o fogo é o filho de amantes
forjado nas salas do mito

entre beijos de cinema


no vidro fino
que sonha com seus estilhaços
os monges se guardam
salivando as excrecências das imtempéries da pele

o interior das ampolas narcóticas de descaminhos
tem nas gotas o algodão travesseiro do céu
as bicicletas flutuantes e enfim
as calamidades calcinantes do desejo

no veludo dos seus pés de riacho
os gatos voam os telhados de barro
enquanto o chão suspira a ausência dos pneus
os cacos nos muros tentam barricadas
aos gritos de tristeza incondicionais e altivos
que a lua emite pela boca dos felinos

e assim quer quem ama
corre descascando a tinta nas palavras
avançando os códigos e seus metros cúbicos
fazendo do papel, pó
dos limites do corpo, céu

4 comentários:

Louis Alien disse...

Cara, um puta poema!
;dá pra ver santa teresa nele, os gatos, os amores e os dias quietos tipo domingo. ah, e o desejo!

Clarissa disse...

Gostei também, me deu saudade de você. Esses barulhinhos são intencionais? Ficou bom.

Gabriel Barbosa disse...

Eu fico impressionado como cada palavra, falada, ouvida e lida, consegue me jogar, e é JOGAR mesmo, pra cantos totalmente improváveis! É como uma calçada cheia de calçadas diferentes andada por pés que caminham na ordem aleatória. Além do que se consegue sentir a cada passo! Genial!

nydia bonetti disse...

Tua poesia é avassaladora, Heyk. É música...

crédito do desenho no cabeçalho: dos meses duro, nanquim sobre papel, 2010 Philippe Bacana