quinta-feira

Loja de fumos – terminal rodoviário de Cosmópolis-SP



Depois de passar a última meia hora tentando fumar e não conseguindo, vi que precisava contar isso. Ontem eram as quatro horas da tarde no verão do carrossel caipira. Tinha descido de um circular Campinas/Cosmópolis e esperaria 40 minutos para chegar o Cosmópolis/Engenheiro Coelho, para descer no meio do trajeto, Artur Nogueira, onde minha mãe mora e onde passei a segunda infância.
O primeiro ônibus tinha ar condicionado, o que não queria dizer nada, estava cheio e suei o resto do álcool que tivesse no corpo, caso a volta de bicicleta de Barão Geraldo até Betel na madrugada do dia anterior não me tivesse queimado todo ele. Ah, Barão Geraldo é um distrito de Campinas, onde fica a Unicamp. Betel é um distrito de Paulínia. Desci, eram as quatro. Em dúvida se primeiro lavava a cara ou se tomava um refresco, optei pela cara e só depois do refresco fui ver que realmente o segundo ônibus só sairia às 16h40. Sabia que meu tabaco não duraria tanto, vi que na rodoviária havia uma loja de fumos, dessas que têm cheio bem forme de tabaco curtido e que vendem chumbos para pesca.
Resolvi passar pela loja sem parar, tinha a esperança de encontrar uma amiga que trabalha na prefeitura da cidade e mexe com a memória do lugar. Ela estava lá, acertamos um pouco de amizade, um pouco de trabalho e, antes que chegasse minha hora, me despedi e fui à loja de fumos. Entrei. Não tinha ninguém dentro, mas chutei que um rapaz do lado de fora, tomando ar, estava quente, fosse o meu atendente. Uns segundos depois ele chegou, tinha a dicção própria ao aparelho ortodôntico, tinha a pegada funk ostentação, óculos escuros espelhados, e não os tirou mesmo na luz baixa da loja, balançava, ao andar, junto com um colar de ferro grosso, um boné bem grande e uma bermuda que seca rápido se molhada, era alto e bem magro, o que me fez crer que era bem jovem, mais jovem que eu sete ou dez anos.
Oi, quais os cigarros de palha que você tem? Esses dois. Mas e aqueles ali? Tenho eles também. São diferentes? São. E esse canarinho? É goianinho ele, é o mais forte. Mais forte que o Piracanjuba? É, bem mais. E aquele de cravo? Não é de cravo. Não? É o nome dele que é cravo? É, é de cravo da índia. Hã. Quanto é? Seis. Me vê um.
Contei as duas notas de dois e mais três moedas. Paguei, subi as escadas, o ônibus já estava lá. Fui o último a entrar, não tinha ar condicionado, mas as janelas estavam abertas e achei melhor. Desci, andei até a casa da minha mãe, fui cuidar da vida. Isso foi ontem. Hoje, agora há pouco, depois do almoço, resolvi testar o cigarro de cravo da índia. Zambaê se chama. É fino fino, me senti fumando um Virgínia Slims ou um Vogue, isso se o cigarro carburasse, não carburou, demorei um tempo pra conseguir cumprir essa meta, pra constatar que o cigarro de cravo da índia não tem cheiro de tabaco, não tem cheiro de cravo, não carbura e é fino, ruim de segurar, tem bastante palha e um recheio empedrado. O sol está bem quente hoje também, apesar da chuva de ontem, forte e demorada.

2 comentários:

Tulia pimenta disse...

Pra quem nunca fumou...gostei da descric,ao do rapaz, mas do cigarro...nada entendi! Muito louco o atendimento, nao? E vivenciei bem a situac'ao vivida. Isso vale de comentario? Porque de literatura... entendo igual de cigarro...nada!!!

Heyk disse...

Sim, Túlia, é pra isso mesmo, pra nos deslocar. Só não pode ter vontade de fumar por causa disso!

crédito do desenho no cabeçalho: dos meses duro, nanquim sobre papel, 2010 Philippe Bacana