quarta-feira

Entrevista e coçada na cabeça

Segue trechinho modesto da entrevista que realizei dia 1º desse fevereiro com o editor e poeta Sergio Cohn sobre a revista Azougue, revista de poesia, artes e pensamento inclusa entre as mais importantes da América Latina que circula desde 1994.
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[Sergio Cohn] O que a gente percebeu, e se tornou a grande questão para a gente, é que os poetas que a gente lia eram inacessíveis para a nossa geração. O Claudio Willer estava há 13 anos fora de catálogo, o Roberto Piva estava há nove anos sem publicar, o Afonso Henriques Neto estava sumido. As nossas referências não existiam para a nossa geração, não tínhamos como compartilhar eles.

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[Heyk Pimenta] E como aconteceu desses caras, que eram fantásticos, virarem referência para vocês? Quem eram vocês e onde vocês descobriram eles?

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[Sergio Cohn] Foi um bom acaso. Quando adolescente eu gostava de poesia, mas havia um problema porque a poesia brasileira que circulava, que a gente tinha acesso, não nos respondia, digamos assim. Ela parecia muito longe da minha vida. Eu encontrava o retrato mais próximo do que eu era na letra de música. O que aconteceu é que um dia mágico da minha vida, um dia fundamental, eu e dois amigos, o Juliano e o Ferraz, que posteriormente fariam o Azougue comigo, adolescentes ainda, fomos fazer um sarau simbolista para tomar uma garrafa de absinto que eu havia ganho do meu avó. Ela estava perdida, empoeirada na estante, e eu pedi para ele que me deu. Então pegamos o absinto, fomos para um sítio, e levamos os livros de poesia que a gente lia na época, o Matrimônio do Céu e do Inferno do William Blake, o Temporada no Inferno do Rimbaud, Pequenos poemas em prosa do Baudelaire. As nossas referências eram todas antigas. E eu levei, por acaso, um livro do Edson Passetti chamado Das fuméries ao narcotráfico. Era uma análise sobre o tráfico de drogas, e que no fim dizia que se era para discutir drogas, era necessário ver os textos literários que foram feitos sob ou sobre o efeito de drogas. E tinha uma parte chamada Estilhaços, que era uma série de textos baseados em drogas. De Rimbaud a Ginsberg. Meu pai estava lendo o livro como sociólogo, e eu peguei ele sem avisar e pus na mochila. Então, a gente tomou absinto, fumou, e começou a leitura. Estava chovendo forte, e a água entrava pela persiana fechada. De repente, o Juliano pega o livro do Passetti e começa a ler um poema: “Eu direi as palavras mais terríveis esta noite/ enquanto os ponteiros se dissolvem/ contra o meu poder/ contra o meu amor...” E o poema acabava com “eu apertava uma árvore contra meu peito como se fosse um anjo/ meus amores começam crescer/ passam cadillacs sem sangue os helicópteros mugem/ minha alma minha canção bolsos abertos da minha mente/ eu sou uma alucinação na ponta de teus olhos”. Ele acaba de ler o poema e nós estávamos estatelados. Nunca tivemos antes uma experiência como aquela. E nós passamos o resto da noite só lendo esse poema, tentando entender aquilo. Porque ali havia a mesma voz que a gente encontrava num Jim Morrison ou num Lou Reed, só que falando sobre São Paulo. Havia a referência existencial e a referência geográfica. Era uma voz que a gente podia entender como nossa. Naquele momento a poesia apareceu como uma possibilidade. Ela não era mais uma coisa presa a um passado, mas fazia parte de nosso tempo. A única referência ao autor do poema, o Roberto Piva, era uma nota de pé de página dizendo que era um poeta entregue à rebelião constante e que tinha passado 13 anos experimentando cogumelo e ácido lisérgico. Perfeito para encantar adolescentes...

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[Heyk Pimenta] E daí?

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[Sergio Cohn] Daí eu voltei para São Paulo obcecado pelo Piva, sai em busca de qualquer coisa dele. Eu comprei a Antologia Poética, que a LP&M tinha lançado dele, e procurei meses e meses pelo Paranóia, que era o livro dele onde estava o poema que tínhamos lido no sítio, o Meteoro. Daí um dia eu estava com a minha namorada na época, que também faria parte da Azougue, a Priscila, e a gente entra num sebo escondido numa galeria na rua Augusta, e eu pergunto para o vendedor: “Você tem o Paranóia do Roberto Piva?” Ele vira e fala “Você veio no lugar certo, garoto”. E pega, tira uma chave do bolso, vai até a escrivaninha, abre a primeira gaveta, tira uma caixa de madeira, abre a caixa, tem um papel celofane violeta, desembrulha e lá está o Paranóia. Eu deixei quatro mesadas minhas lá. Quando estávamos indo embora, o cara chegou para a Priscila e cochichou “larga esse cara, porque ele é perigoso”. O que criou um clima mais fascinante para a gente. O Piva significava perigo. Não há coisa mais maravilhosa, quando você é adolescente, do que descobrir que a poesia pode significar perigo. E o Paranóia virou um tipo de amuleto para mim, um objeto de poder, para usar a terminologia do próprio Piva.
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O trecho é esse. A questão que levanto pra bricarmos é a seguinte: O Sergio tá falando dos anos 1990. Mas e para gente, quem fala a nossa língua? Qual das artes se corresponde conosco em concordância? Tenho medo de serem os seriados de tv paga o nosso grande porta voz. O que acham? O Rock já era. A poesia não chega em ninguém, como vai ser?

7 comentários:

william galdino disse...

Fala Heyk
lendo a entrevista do Sérgio me veio à cabeça a outra conversa que você levantou lá no maná.
Lembro que quando começei a me interessar por literatura encontrar um livro do Piva, Do Sallinger, do Ferlinghetti ou de qualquer outro escritor desses que mexem com a cabeça de jovens leitores inquietos e sedentos por uma literatura fora do lugar comum era muito dificil, então era bater perna pelos sebos da cidade e torcer, já que as edições zeradas nas livrarias tinham um preço inacessível. Então ao encontrar um desses livros num sebo a felicidade era indescritível.
Hoje em dia em tempos de internet com um clique é possível ler estes e muitos outros autores que há alguns anos atrás teriamos vendidos a alma por um livretinho surrado.
Acho a internet uma ferramenta utilíssima e de imensas possibilidades, tá quase tudo aí ao alcançe, mas esse quase tudo é um mar imenso que também atordoa. E esse é o risco que a gente corre, tudo ao mesmo tempo, perigando ficar sempre de um lado pra outro sem ter um contato que vá além do superficial.

Com dificuldades ou não tem de haver a vontade, alguém querendo.
tá todo mundo afim de arte?
E aí a gente volta a questão da cultura inútil.

E aí a gente entra na questão da educação, do meio, do acesso...

Voltando à entrevista com o Sérgio, aqueles que falam a nossa língua são atemporais, o proprio Sérgio cita Jim morrison, lou reed e o próprio Piva, não sei a idade dele mas acho que os citados vêm de uma geração anterior, sem falar do Rimbaud, no Blake. Mas isso é uma tendência natural, buscar os "clássicos" já sacramentados pelo tempo, pisar num chão mais seguro e aí depois o negócio é começar a se arriscar em outas direções pra não ficar estancado num mundo anacrônico , querendo dizer de um tempo que já não há.
E vc pergunta qual seria arte que se correspode conosco a altura.

Com certeza não são os seriados da tv paga, ou a maioria das canções que ouço nos rádios, ou muita das falcatruas de alguns grandes (pra quem?)Artistas que vejo por aí.
Quem anda falando a mesma língua?
São poucos, mas quem está interessado em números? Um milhão de amigos só na canção do rei. São poucos, nem tão pouco assim, alguns espalhados por aí, sem megafones, sem cara estampada na primeira página, mas estão dando o recado, alguns com um violão nas mãos, outros vendendo seus livros no cara a cara. Alguns não legitimados(ainda rs). Honestos e entregues inteiramente em tudo que fazem .
São estes a quem dou ouvidos.


É isso rapaz a conversa é boa vale a pena botar pra frente

ABRAÇÃO.

Heyk Pimenta disse...

Porra william, que jóia o comentário.

Nós e os nossos. papo de seita, né? Mas fazer o que se o caminho que tamos traçando é caminho de minoria.

Somos uma minoria etnica, os poetas bêbados são uma etinia perigosa e em extinção.

Sabe de uma coisa:

a coleçãozinha minha e do giovani, peri go. É esse o recado.

peri
go!

Victor Meira disse...

Acho muito doida essa pergunta. Não sei se alguém sabe quem é que fala a nossa língua. Não sei se é possível encontrá-la fora de nós mesmos. Talvez nos '90 a língua ainda fosse um troço que consegue se concentrar em um só, como expressão de um tempo. Definir poucas vozes em nosso tempo é uma coisa que soa absurda.

São os anos da afinidade, num é, negó?

Guto Leite disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Guto Leite disse...

Também piro com essa questão, amigo poeta! Fiz um curso com o Willer durante uns meses em Sampa e ele se mostrou desinteressado e de uma poesia sem muita força. Por outro lado, já topei com o Piva e ele continua incandescente! Estou lendo ainda o "Maio 68" e me perguntando tudo isso... Se não temos nada, será que dá pé sermos o que os escritores de amanhã terão? Temos cacife pra isso? De toda forma, concordo com o William que as vozes a serem ouvidas definitivamente não estão na Bravo! (por enquanto) Me alegro muito mais com algumas postagens e alguns blogs do que os livros badalados e a frágil poesia dos saraus oficiais. Ressalvo a Ianelli, que deve ser uma grande poeta caso ache sua voz no meio do eco. Sei lá, disse, disse, me envergonho e nada!

Heyk Pimenta disse...

Que legal gente.

Pós carnaval, vou voltando.

Mas olhem. Victor, tem razão, sim, e acho que minha pergunta foi essa:

para você amigo leitor: quem são aqueles que falam sua línguá? É isso, uma enquete sobre a afinidade.

Os contemporâneos ficam sempre na surdida. Escolher nossos ícones é uma tarefa vesga, mas ´proponho sim que nos investiguemos. Que nos perguntemos e que cacemos nossas referências.

Abraço para todos.

Heyk Pimenta disse...

Guto:

vou dizer, concordo com tudo. E tenho uma ressalva.

Nem sei muito da poesia do willer, pra mim ele fez foi outra coisa:

ele foi o cara que parou para analisar o tempo dele.

Escreveu muito sobre os poetas de seu tempo. SObre o Piva, SObre outros, sei lá. E isos foi importante, ele foi uma tentativa em tempo real de discutir uma literatura que não circula em prateleira, mas de mão em mão.

crédito do desenho no cabeçalho: dos meses duro, nanquim sobre papel, 2010 Philippe Bacana