terça-feira

PIRATÃO, a invenção da cópia!


Entrevista com Alex Topini

entrevista originalmente feita para publicação no tabloide ATUAL nº2

por Heyk, Azulay e Joannes

Piratão, como foi pra chegar até ali, até a execução?

O primeiro passo é a ideia, fomos pro escritório, o bar, sempre. E aí Surgiu:“Vamos piratear videoarte?”. Essa idéia surge porque há uma vivência e uma observação muito aguda no/do espaço urbano. O que acontece na cidade, na economia da rua, a oportunidade de conviver, de transitar pelo espaço urbano e participar, se deixar afetar pelas coisas. Você não vai pra Uruguaiana para observar, você participa, ainda que seja como observador. Você é englobado, não tem fuga. A partir daí usamos umas coisas pra afetar outras, é um movimento. E o Piratão nasce dessa observação, de que de uns anos pra cá, em qualquer esquina tem todo tipo de vídeo e disco sendo vendido no aramado.

E claro, o PIRATÃO surge também da forte relação do coletivo Filé de Peixe com o audiovisual; desde o início das nossas ações, sempre havia projeções que desencadeavam interferências poéticas, sonoras e performáticas. E por causa disso, ao longo desses anos, passamos a constituir um acervo de vídeos e filmes experimentais. E aí tem produção própria de um dos membros do coletivo, o Cataldo, que trabalha efetivamente com essa mídia. Outro item importante é a pluralidade interna do coletivo, a formação em arte é formação secundária para todos nós. Primeiro veio jornalismo, história, sociologia, turismo, e só depois, fotografia, cinema-edição, música. Nós sempre operamos muito bem com essa diferença interna, e isso ajuda muito na hora de ter sacadas. Não somos homogêneos, e por mais difícil que isso seja, trabalhamos essas diferenças e dessa diversidade saem tensões criadoras.

Vocês partem da observação do urbano, do camelô e como chegam à vídeoarte?

Definir o que caracteriza o vídeo é muito difícil. O vídeo é uma mídia/suporte? Ou o vídeo – e é nessa direção que a gente trabalha – é um arquivo? O vídeo pode estar no celular, no cd, no computador. O vídeo tem essa transição, ele é um objeto arquivo. Mesmo quando comparado a fotografia, o vídeo resguarda uma particularidade significativa: ele se reproduz a partir da cópia, e a cópia da cópia gera um arquivo idêntico ao original. Na fotografia a cópia se reproduz a partir do negativo ou do arquivo digital. Se alguém compra uma fotografia e escaneia ou refotografa para fins de reprodução, essa pessoa não está reproduzindo, está falsificando, pois esse outro, derivado, difere, está alterado em relação ao original. E isso impõe, no comparativo entre o vídeo e a fotografia, uma diferença fundamental. Não é possível precisar o que é cópia e o que é o original quando se trata do vídeo. Ao baixar um vídeo da sua câmera para uma ilha de edição, inexoravelmente você já está fazendo uma cópia. O vídeo se descola/se desloca do suporte, mantendo sua capacidade de se oferecer na íntegra. A videoarte para se sustentar como obra no mercado de arte, necessita sempre de um outro que lhe confira unicidade: um objeto(no caso dos vídeo-objetos), uma instalação onde ele esteja acoplado, ou, por fim, um certificado. O certificado estabelece uma concordância entre o artista e o colecionador de que aquele exemplar é uma obra de arte. No caso do vídeo, o certificado é o único autêntico por excelência, é um título, capaz de circular e se valorizar segundo lógicas próprias do mercado de arte. Quando um autor põe um vídeo no You Tube, ele não está pondo a obra lá, o que ele está pondo é o arquivo de vídeo. O que quero dizer é que, e é o que orienta o trabalho do coletivo, esse arquivo de vídeo pode se descolar e circular, como informação audiovisual, sem que isso em momento algum desautorize ou destitua a obra videoarte, certificada, circulando nas galerias e centros culturais.

O Piratão se insere muito mais então em proporcionar novos circuitos para as obras, para os arquivos das obras, do que uma ruptura na forma como funciona o mercado de arte?

Não há uma ruptura nesse aspecto, não há oposição, mas sim, podemos ter mudanças significativas a partir do Piratão. O que há é uma percepeção dessas contradições, dessas fissuras. No momento da performance criamos uma economia audiovisual que leva em conta outros valores, e não só a compra e venda.

Até por que o colecionador de videoarte não se sentirá tentado à comprar o vídeo pirata. Não são setores concorrentes.

O colecionador que compra videoarte não está comprando somente a informação audiovisual, mas sim um objeto artístico que tem circulação e valor dentro de um mercado específico. O que estamos fazendo é apropriação dessa informação audiovisual.

E como ocorre essa desvinculação do arquivo áudio visual do objeto de arte?

Se o colecionador de videoarte me doar todo o seu acervo para que seja apropriado na performance do Piratão, esse colecionador não deixa de ter suas obras de arte. O que retemos/apropriamos é uma informação audiovisual, que a partir daí passa a ser mais acessível e se democratiza, sem competir com a obra.

Assim, ele se desvincula num primeiro momento, mas passa ser um elemento constitutivo de um objeto original que a gente produz. Esse objeto é chamado de Encartado: um encarte, mais uma mídia, mais carimbo manual, mais apropriação de vídeo – é uma publicação compulsória. A gente cria um objeto inspirado no mercado informal pirata da música e do filme. E com isso geramos um objeto nosso, um múltiplo. Não estamos vendendo o trabalho de ninguém. Quando você compra, não compra o vídeo do Andy Warhol ou da Maya Deren, mas um objeto do Filé de Peixe, um múltiplo, manualmente carimbado, intervido, com número de série que não se repete, e arquivos de vídeo apropriados. Há toda uma impureza da artesania da produção caseira, dos moldes pirata de confecção desses objetos. O que você leva é o que estamos chamando de um objeto transitivo.

Objeto transitivo, vamos lá?

É um objeto capaz de ativar redes de troca em torno do audiovisual, criamos um objeto que carrega consigo uma informação audiovisual, que é apropriado hora de maneira compulsória, sem pedir autorização do autor, sem muitas vezes informá-lo; hora quando um autor doa o seu vídeo, quando um colecionador doa seu acervo; hora quando doando seu acervo, esse doador entra em contato com os seus amigos para que façam o mesmo. Aí coletivos vão sendo envolvidos e se estabelece uma rede, que gera um movimento de deslocamento e aglutinação desse material pela performance Piratão, que vem e vai para diversas partes, inclusive para figurar os acervos, aumentando os acervos dos próprios doadores. Esse objeto, junto com essa performance, ele ativa essas redes, assim: aglutinação, fragmentação e difusão.

Como os sistemas de dádiva, de troca, o Piratão funciona como um ritual. O objeto oferecido o é exclusivamente através da performance?

Sim, a única forma de obter o objeto Encartado é durante a performance, que dura em média duas horas, depois acaba. Piratão é uma performance que gera uma economia audiovisual. O Encartado só pode ser acessado, ele só acontece, como elemento constitutivo de uma performance, e depois, como um resíduo ativo do Piratão. Ao inserir esse objeto num aparelho e dar play, você sempre estará ativando uma rede de troca, mais do que simplesmente assistindo seu conteúdo. Em suma, não vendemos trabalho de ninguém, e ninguém está comprando um vídeo, estamos vendendo o nosso trabalho, numerado, os vídeos fetichizam nosso objeto, ao mesmo tempo em que damos trânsito e acessibilidade a eles, ativando redes de troca.

E como foi a primeira execução do Piratão?

Sentia que todos estavam muito felizes. Era como se as pessoas não estivessem acreditando que aquilo estava realmente acontecendo, e acho que por tudo aquilo ser realmente polêmico, inusitado, uma experiência inaugural, incomum.

Afinal vocês inauguraram para a videoarte algo que é moeda comum na música e no cinema, a cópia não autorizada.

E disso a popularização, a rede de trocas, a acessibilidade. Ofertamos os Encartados sobre telas aramadas, o que funcionou como um catálogo, tudo o que tínhamos, tudo fragmentado em micro coletâneas separadas por autor. Quando você compra um encartado está comprando também um fragmento da nossa coleção. Inclusive tem aí um aspecto conservador: o apreciador da performance que levou Encartados para casa, levou em grande maioria, os objetos fetichizados por vídeos clássicos e deixou os de autores contemporâneos lá, esses venderam bem menos. Porém, todos estavam lá, lado-a-lado, e de maneira subversiva, valendo os mesmos “um é cinco, três é dez!”.

Mas o próprio fato de vocês terem organizado as coletâneas por autor, colabora que levem só os vídeos de autores conhecidos. Também é um aspecto mantenedor do status desses autores, colocá-los em separado de artistas menos conhecidos, apesar de serem vendidos pelo mesmo preço.

Isso é uma coisa pra pensar. Até pra distribuir trabalhos de autores recentes. Vamos usar esses nomes clássicos para agenciarem visibilidade para novos videoartistas. Aguarde!

E os planos do Piratão?

Temos propostas para fazermos a ação no Rio Grande do Sul, Pará, São Paulo e pro Rio de Janeiro também. É um trabalho que acontece a partir da mobilidade, do deslocamento, do percurso em redes, da troca. Temos alguns desdobramentos previsto, e estamos incorporando todos os resíduos de cada performance como objetos únicos, de uma experiência que nunca se repete. O desafio é reproduzir original.

3 comentários:

pazktrobdapdrohenedraridradoquem disse...

Boa abordagem !!!
Amigo, acho que não vou hoje, estou resfriado e febril, melhor não dar chances para virar porco...
Mas nos vemos por aí!!!

Rachel Souza disse...

Entrevista enorme com o Topini. Vou ler, vou ler.
Beijo

O Outro Olhar. disse...

Oi, passei para conhecer mais sobre seu blog, falou?, bom final de semana.

Ah, espero a sua visita, você verá a forte expressão Cultural de Cachoeira e São Félix-Ba.

crédito do desenho no cabeçalho: dos meses duro, nanquim sobre papel, 2010 Philippe Bacana