quarta-feira

A rua tempo

Na Voluntários passo
como eles
voluntário

há quanto tempo não me ligo
três nove setenta
quatro três sete cinco

mais que marginal
imaginário
ser a terceira margem do rio

**

Ao quererem-se nos Inválidos
invalidam-se e somem

e os sonhos bons
quem dera os fosse
são segundos

os primeiros
neles e no tempo
se acanham

e perduram
e perduram
e perduram

**

Os muros da escola atentos ao cego que voa
Nuvem bailarina no mar de eutanásia dos tempos

**

A Passagem aberta
doce
de portais de amêndoa

em raios da hora nova
é nos novos arranhões

o sono solda
tempos breves

e outubro passa
como música
no ônibus

poemas fruto das ruas Voluntários da Pátria, Inválidos e Passagem do Rio de Janeiro

4 comentários:

Victor Meira disse...

O que eu gosto mais é:

"Os muros da escola atentos ao cego que voa
Nuvem bailarina no mar de eutanásia dos tempos"

Tem força, claridade, sensibilidade e unidade, sem sacadas ou pequenas espertezas poéticas. Não consigo nem falar um trecho ou outro que gosto mais: é bem espalhado, reluz a cada palavra.

Que haja sempre a eutanásia temporal e os voos cegos.

Heyk Pimenta disse...

sim, notadamente, esses dois versos foram escritos em outro contexto, e com outras motivações, e também notadamente eles se inserem estilisticamente à minha fase anterior, a de imagística, que permeia todo aquele poema que deu algum ibope, foi premiado e tal, lembra, de fora ou maça do amor,

que são recortes de criação baseados nos lorcas, huidobros e afonsos henriques da vida.

Ah, e tem um outro cara que é diferente mas tá chamando minha atenção, o armando freitas filho. já veio de guerra, 69 aninhos de saúde e muita poesia durante toda a vida.

Então, faz favor, faz a crítica pesada quanto às partes que não gostou, mostre as espertezas e outras ferramentas que não gosta e aponte fraquezas dos versos e tal?

Victor Meira disse...

Aponto Heyk, vamo lá.

Acho fraca especialmente a estrofe do meio. É verso-piada, não acho legal. Aliás, eu já disse isso aqui, né? A primeira estrofe soa fácil - tem sua belezazinha, mas é meio espertinha, sabe? Já a estrofe que fecha é ótima, explora um paradoxo, uma transgressão do objeto, e a imagem sugerida é grande. Tomar o imaginário como o supermarginal é massa.

**

A segunda é boa. Soa pálida e calma. Gosto da repetição no fim, onde o pesadelo da realidade perdura.

**

-

**

Dessa última gosto mais da última estrofe. É simples e honesta, senti verdade quando a li (outubro passa assim mesmo, mesmo quando o busão não vai pela Passagem). As duas estrofes do meio tem qualquer coisa empoeirada do teu próprio traço, talvez em "arranhões" ou em "solda". Isso eu só senti, não fiz nenhum estudo acadêmico não.

***

Certo? Pode soprar a velinha.

Heyk Pimenta disse...

Perfeito,

a piadainha é piadinha mesmo.
os arranhões e solda, realmente são termos que se não usei usei termos correlatos e daí uma certa poeira porque todo esse recorte seco das ações foram ferramentas muito usada em largarta e noiva morta, duas séries longas, a primeira virou livro, inédito.

a honestidade e simplicidade na última estrofe tem mesmo a ver com isso, é daí o meu sustento, e tem de se ser essas duas coisas pra existir nessa tarefa.

o segundo poema tem todo esse tom, calmo e a realidade nele perdura. Isso mesmo.

O que é um paradoxo, já que o anseio do primeiro poema é ser a terceira margem do rio, através do imaginário.

mais considerações podem ser traçadas, penso.


ótimo ter a coisa esmiuçada.

crédito do desenho no cabeçalho: dos meses duro, nanquim sobre papel, 2010 Philippe Bacana