Cem anos de reflexão para um milhão de cientista social por aí falarem: põe lá o tanque na casa da nega. A nega mora em território remanescente de quilombo. Aí vem outro milhão de cientista social e fala: tira esse tanque, que essa nega lava roupa no rio. Aí tira o tanque. Acontece que quando o tanque tava lá, a nega, ou nga, como se diz em Angola, continuou lavando a roupa no rio. A questão: vai ser o máximo que vamos fazer: uns construindo tanques na casa dos quilombolas, e outros mandando desmanchar? Ou seja, uns tentando incorporar os caras no mundo tanque cão, e outros tentando falar que os caras tem que permanecer como a cultura deles era a três milênios? Orra, cultura não é imóvel. E, orra, que papo é esse de levar progresso? É isso: essa dureza de ou homogeneizar todo mundo, ou falar que os caras aqui no Brasil são africanos. Como se quisessem e como se pudessem encontrar a África que eles perderam há séculos em algum lugar da África. E outra, que papo é esse de falar que os caras (índios, quilombola, ribeirinho e tal) tão doidinho para largar o canto deles e cair na aldeia global? Alguém me passa o endereço? Qual é a questão?
imagem 1: filme Quilombo, de cacá diegues imagem 2: Tanque para homens, não consegui encontrar o crédito
O trecho que segue é do artigo Os xamãs e as máquinasde Pedro Peixoto Ferreira, que será publicado no livro Controles e descontroles | Ensaios sobre conhecimento, tecnologia e mercado, da Azougue que será lançado por esses dias.
O trago (do verbo trazer, com muita liberdade) aqui para discordar de mim. No ensaio entitulado saco | situação deriva escrito em 2008, trecho publicado no blog Maná Zinabre, aponto o surgimento da cosmologia e cosmogonia dos povos para dar conta de dois problemas essenciais: a organização do caos, no sentido de classificação do mundo em categorias; e a hierarquização de saberes e poderes, o que beneficiaria certos grupos dentro de uma sociedade em detrimento de outros. O trecho que segue aponta o surgimento dos mitos dentro de outras premissas e “finalidades”: para o Pedro, o mito seria antes uma tecnologia cosmicizante do que uma forma de poder. Publico aqui os textos para aumentar os elementos para o debate a cerca das tecnologias do humano através dos tempos. Após o trecho do Pedro, segue um trecho do texto da minha autoria que citei.O tópico é para mostrar solidariedade (não precisa eu sei) ao Eduardo Viveiros de Castro na máxima “o chocalho do pajé é um acelerador de partículas”.
"O mito como máquina de subjetivação é o "ponto de fuga universal", ponto de vista do sujeito humano para o qual convergem todas as perspectivas. O relato de um mito, ou a sua modificação, seriam melhor compreendidos, se, para além de esforços intelectuais de classificação do mundo (e.g. Lévi-Strauss, 1962) ou disputas por propriedade ou prestígio (e.g. Harrison, 1992), eles fossem vistos como instâncias em que o homem, sentindo-se perto demais do fluxo descontrolado e pressentindo a "catástrofe" do caos iminente, se transporta para este "ponto de fuga universal", perspectiva privilegiada das coisas e de suas relações que lhe permite conduzir o processo de cosmicização necessário à ação. Trata-se de uma técnica, principalmente, pois uma vez instalado nesta perspectiva o homem é capaz de dar início a uma sequência causal no mundo ao seu redor, que mais ou menos eficazmente conduzirá o vir-a-ser cósmico em sua tensão extática até a sua resolução. Apesar de já pressupor uma tecnologia, está técnica precisa ser por ela potencializada e direcionada. Assim, se a função do mito é conduzir (efetivamente) do caos ao cosmos, não devemos perguntar de onde surgiu esta técnica, visto que a pergunta já supõe algo do qual ela teria surgido, quando ela seria antes a origem de tudo. A técnica portanto, não surgiu de um mundo sem técnica (como se, num belo dia, o primeiro mito tivesse sido inventado), mas sim de uma ruptura sempre presente que, como num êxtase, simultânea e constantemente objetiva o mundo e subjetiviza o ser.” Os xamãs e as máquinas
.
" O papel que os conjuntos simbólicos e de ordem tiveram na maior parte das suas aplicações foi o de impedir uma nova pergunta sobre um problema que já tinha sido resolvido dentro desses conjuntos de entendimento. As tentativas de dar ordem ao mundo fizeram com que as relações aparentemente suportáveis para a existência fossem aceitas e só fossem substituídas quando o que elas causassem fosse danoso à existência a ponto de não ser mais possível existir dentro dessas premissas. Assim uma faceta interpretativa de um conjunto de significados só é substituída se for contraditória dentro desse conjunto e principalmente se aqueles que detém a autorização para modificar essa faceta estiverem de acordo com sua modificação ou se por confronto forem substituídos junto com as facetas danosas. . "O que aconteceu nos processos de desenvolvimento dos conjuntos de significados foi a justificação das facetas danosas pela criação de outras facetas interpretativas que davam sentido e finalidade aos motivos pelos quais esses danos deveriam ser suportados.
. "O que há daí em diante é a elaboração de significados para a existência de acordo com as finalidades daqueles que elaboram os significados, onde não se estendeu a todos os integrantes de uma sociedade o papel de desenvolver ou de substituir a ordem, regras, símbolos e significados de sua própria existência. Suspender as regras, significados e finalidades é dar de volta ao mundo o seu teor de absurdo – a possibilidade da abertura ao entendimento de novas finalidades e significados para a existência.” saco | situação deriva
imagem 1: isa - instituto socio-ambiental, etnia Araweté, Pajé Moinayärä (peye) em transe e o chocalho aray em cerimônia do cauim doce. Foto: Eduardo Viveiros de Castro, 1982.
imagem 2: isa - instituto socio-ambiental, etnia Asurini do Xingu, Xamãs extraindo doença de um bebê. Foto: Jacques Jangoux, 1978