domingo

De dentro (essa postagem ficará aqui apenas por dois dias)

E a lua corre solta nesse céu de brasa. Sua boca ainda mastiga alguma coisa minha e eu sinto um cheiro que provavelmente é seu. A sucessão do dia é de sono e sonho. Preciso de uma notícia desvairada. Corrijo o palavreado alheio pra poder ficar calado e amontôo moedinha pra pagar a toca onde durmo. Um chumaço de algodão gira no vinil que cambaleia. A luz é amarelada. Minha mobília é feita de caixa de fruta e eu continuo tendo uma escada no meio do meio que dá pro nada. Num jardim de inverno aqui perto eu conto as formigas que rasgam minha roseira. Meu violão máquina de escrever e jaqueta de couro mofaram. Varei dos cadernos e oitocentas personalidades no ano passado. Ralei o nariz nas ondas e entendi a dinâmica dos biquínis nas manhãs de quinta. Vi cinema mudo pra aprender inglês e vi mais o mundo num poema concreto do Vertov. A maquinaria dessa geléia funciona por conta própria meu amor. A poesia é uma mentira brava que inventaram nos anos 10 e agora eu me desligo na internete pra negar o iluminismo. O Brasil teve trinta homens e trinta e duas mulheres e não sei porque ainda não ficou deserto. E a roda gigante é só um jeito antigo de tocar o céu. A linha corre solta nesse paletó de palha. O metrô voa num arbusto de frutinha e eu nunca entendi nada dessa pelaiada que me cobre. A lenha corre solta nesse amor sem asa.

3 comentários:

Victor Meira disse...

Bacana a construção do primeiro e último verso, como versos irmãos.

Gosto dessa, nego.

Minina disse...

lembrei de Bukowski... terminei qse agorinha o "misto quente" dele, onde descortina como é forjado o "american way of life"... algo q tem como ápice "sentar no trono dum apartamento com a boca escancarada cheia de dentes, esperando a morte chegar"... e deixar trono e ossinhos pro filho guardar pras gerações futuras... vc faz isso aqi, "Minha mobília é feita de caixa de fruta e eu continuo tendo uma escada no meio do meio que dá pro nada."... aqele veho escárnio... tanto de bucowski, qto de raul...

enfim, cada leitura, uma leitura... lembrei! rsrsrsr

bjo mais!

té!

Carlos Eduardo disse...

Agora não mais anônimo... Essa menina aqui tem um lance ótimo, fez uma vitamina e bateu você, Raul e Bukowski... isso é lindo. Pena que Fidel morreu!

crédito do desenho no cabeçalho: dos meses duro, nanquim sobre papel, 2010 Philippe Bacana