sábado

Pipocão, a nova novela de cavalaria



Alguém lembra qual a ordem das partes de uma novela de cavalaria? Eu não lembro os nomes. Há quê sem saber dos nomes sei da trama, o clássico: uma aparesentação, o enúncio de um conflito, decorrer de trâmites do conflito, embaralhar de cartas enquanto o cavaleiro lembra que também ama e que precisa ficar ao lado da amada, depois energização da folha - o cavaleiro vai de fato ao conflito, a guerra acontece, todos suam, todos amam junto com ele, ele vence, pega a amada e manda um felizes para sempre escrito à mão no finalzinho.

Qual é a diferença disso para um blockbuster de ontem e de agora? Van Damme, Van Diesel, Benicio Del Toro, todos heróis de cavalaria! Ou isso ou romances com estrutura de romance de cavalaria. Sacam? O que estou falando é que nada mudou na estrutura narrativa do dito filme popular em relação ao que estabeleceu a epopeia ocidental nos últimos 5 séculos. Fantástico? Assustador!

As imagens sim. Tente contar quanto tempo cada cena fica no ar sem corte, vai contar assim: 1, 1, 1, 1. É isso. De um em um segundo a tela muda. Colocamos foi flash na cavalaria. Só.

Mas vamos pensar, não é preocupante que estejamos dentro do universo narrativo ainda da Guerra dos cem anos? Me incomoda um pouco desconfiar, mas o discurso padrão conhecemos: naquele momento estavam correndo e se emanando ideias que só viriam a se consolidar mais tarde, e até que virassem tradição, que ganhassem caráter popular demorariam mesmo alguns séculos, vá lá.

Assim foi o individualismo do Renascimento, assim o quão incrustado está Hobbes e sua máquina de vigiar sagui para os nossos dias. Um coronel para cada camelô e vamos bem. Mas não venha me falar que isso é cognitivo, que a mente se organiza assim porque aí já é apriorismo demais e é jurar que só porque estamos nessa hoje essa é a nossa condição ontológica, papo brabo.

E a investigação do artista deve ser por aí: olhar pra essas permanências, desconfiar delas antes de mais nada (outra ideia de 4 séculos) e desse olhar do desconforto forjar outras chaves, desse desconforto criar forja que ilumine outra coisa em volta. Fica no pipocão, maria, fica!


imagem: Tiradentes: totem monumento ao preso político, Cildo Meireles - 1970

3 comentários:

Gilson Junior disse...

Sei não, Heik! A questão narrativa pipocão segue uma estrutura de romance de cavaleiro propositalmente, é a tal da jornada do herói,que nada mais nada menos é a estrutura básica de mitologia ou da "organização" da mitologia como metogolia de ensino. E isso vme antes , acho, da estruturação da sociedade em sociedade da escrita.

Se bem que há relatos de outras civilizações que não a ocidental possuírem narrativas doidaças.

Eu não sei até que ponto uma estrutura narrativa tem influência no conteúdo narrado além da forma. Porque de certa forma uma estrutura narrativa tem mais da civilização que a construiu do que o contrário, ela meio que depende do processo histórico de formação da cultura à qual serve. Mas memso assim esta estrutura que vem de um elemento de mutabilidade lenta não é algo monolítico e permite que memso dentro de uma estrutura dessas se faça desde um nada em forma de profundidade até Spartacus, ou seja, onde há Vin Diesel há Danton Trumbo, saca?

Cada civilização tme seu modo de narrar, mas o que é narrado pode ser tão díspare quanto A Metamorfose e o Grande Dragão Branco.

O probçlema não é o prédio, são os moradores.

Heyk Pimenta disse...

Vá lá.

Tem sentido.

Mas mais chamei a anteção par auma permanência do que para o conteúdo.


Os conteúdos, esses cabemem outro post.

ABraço, nego

Victor Meira disse...

Nego, esse tema é bem legal. Pra aumentar o círculo, cê pode procurar alguma coisa sobre o Memorando de Vogler (Vogler's memo), e também ler Joseph Campbell. O Campbell fala sobre o mito do herói, ligando mitologia e psicanálise pra mapear o padrão dos mitos no mundo inteiro, sugerindo a possibilidade do monomito (um único mito que só se traveste de jeitos diferentes ao redor do mundo e das épocas).

Esse roteiro que se aplica desde os romances de cavalaria tá cheio daqueles escopos ainda do teatro grego, que miram na catarse como finalidade da obra. Se há uma mira, um objetivo, desenvolvem-se técnicas, métodos e fórmulas pra torná-lo cada vez mais preciso. E hoje o cinema blockbuster sabe que catarse dá GRANA, e que todo mundo quer resolver complexos e sentir redenção e justificação nas representações cinematográficas. É um método rápido e surpreendente, muito funcional (do ponto de vista do espectador). Então beleza, o mercado sabe que o espectador comum ESPERA a catarse na obra de arte, e nada mais.

Depois, a questão não tem muito a ver com uma limitação cognitiva da humanidade. Tem a ver com o objetivo da arte. Se o objetivo é a catarse, podemos dizer que já existe um método consolidado, que enche diariamente as salas de cinema e o bolso dos grandões.

A Disney e Hollywood usam uma fórmula. Não só uma filosofia de composição, mas uma fórmula. É o lance lá do Vogler. Engraçado e terrível. E ele fez a partir dos escritos do Campbell. A wikipédia dá uma boa palhinha:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Memorando_de_vogler

Legal isso, nego, vamo falar mais disso aqui. Papo bom.

Beijó.

crédito do desenho no cabeçalho: dos meses duro, nanquim sobre papel, 2010 Philippe Bacana