quinta-feira

NOTAS SOBRE O ASSASSINATO DE MARIELLE FRANCO

1. O assassinato político no Brasil costuma ser velado, com cara de pane,
doença, suicídio ou latrocínio. Ex.: Teori, Eduardo Campos, Ulysses
Guimaraens. Políticos geralmente matam assim.

2. Marielle foi morta por emboscada, como se matam lideranças rurais e
indígenas, sem nenhum tipo de acobertamento. Ex.: Chico Mendes, Dorothy
Stein, Toninho do PT, Celso Daniel. Mafiosos e fazendeiros costumam matar assim.

3. Assassinatos brutais de lideranças urbanas, por ódio ou silenciamento,
acabam incriminando fanáticos e/ou o poder paralelo. Ex.: CCC, Milícia,
Caça a terreiros.

4. Se tomarmos como uma morte comum, o que é impossível nesse caso,
ainda se tratará de uma mulher, negra, pobre, entre 35 e 45 anos. Estatística
que só perde no Brasil para homens negros pobres entre 20 e 30 anos.

5. A candidatura Marielle foi uma estratégia usada em outras capitais e
grandes cidades. Belém, Belo Horizonte, Campinas, Porto Alegre.

6. O perfil dessas candidatas era de mulheres jovens, oriundas dos movimentos
sociais e estudantis, feministas, concorrendo com centralização de verbas de
campanha, encabeçando listas e muitas vezes recebendo votações expressivas,
principalmente do voto feminista.

7. Uma vez eleitas, a não ser que assumam papéis ecumênicos, dificilmente
não estarão ameaçadas. A plataforma que as elege já é suficiente para deixar
todo tipo de poder macho furioso.

8. No Rio, tendo sido executada pela PM, Exército, governistas, milícia ou tráfico,
os mandantes continuam sendo implementadores de políticas autoritárias,
truculentas e genocidas.

9. O número de assassinados não é menos alarmante do que o número de
ameaçados, protegidos por programas de testemunhas e emigrados por
terem denunciado práticas criminosas que misturam máfia e política.Ex.:
Freixo, Padilha, uma infinidade de juízes e procuradores

10. Para quem está preocupado com as instituições, esse é mais um passo
em direção à total instabilidade da democracia.

11. Ao dar a notícia como assalto, no primeiro momento, imprensa internacional
e imprensa hegemônica brasileira corroboram para a criação de uma cortina
de fumaça que justifica o estado de exceção, que na prática já existe e
agora angaria bases legais.

12. A morte de Marielle, Victor Heringer, ou, seis anos atrás, de Ericson Pires
nos faz experimentar por segundos e de forma ínfima aquilo que sentem as
famílias atingidas por conflitos gerados no mais das vezes por pobreza, racismo,
misoginia e ingerência do estado. Mas são mortes muito diferentes entre si e
essa diferença precisa ser considerada.

13. O que as iguala é a sensação de orfandade, impotência, de golpe. E talvez,
mais frágil e insipiente, um embrião de revolta, e, ainda mais distante, a sensação
de que somos muitos e que, se esquecermos das banalidades, podemos disputar
o futuro.

domingo

NOTAS SOBRE HUMOR, RESISTÊNCIA E MÚSICA


tô ouvindo o podcast do Luca Argel, é maneiro. foi dica do Thiago Gallego. É de música portuguesa atual, mas constela a música portuguesa toda que ele tem achado interessante. enquanto tocava uma música dos anos 1980, de uma banda de rock de lá, identifiquei algumas coisas. e resolvi fazer uma reflexão veloz e irresponsável. Vai pro Rafael Zacca também, porque tem pensado e feito humor. 1. apesar de ser dos 1980, a estrutura musical era a rockabilly, que é anos 1950. 2. a música era engraçadinha, parte dela era cantava por uma criança, que o vocalista mandava calar a boca e retomava o vocal. 3. nos anos 1980 nosso rock era muito humor tbm. é só pensar em blitz e ultraje a rigor. até paralamas com "óculos", por exemplo. se imaginarmos que o contexto era de fim de ditadura lá e aqui, tirei algumas conclusões que me desagradaram e me preocuparam. apesar de o juca chaves já fazer humor "político" antes, inclusive na época da canção de protesto no brasil, o humor entra firme, como linguagem talvez até hegemônica, nos anos 1980 por aqui. se olharmos a sucessão das escolas e linguagens marcantes canção feita nas décadas de ditadura que chega até nós, podemos imaginar: 1. 1960's a canção de protesto, revolucionária e de denúncia. 2. 1970's a canção depressão, a fossa toda, a filosofia dos mineiros e o desbunde místico ou festivo ou depressivo de novo de baianos, paraibanos e cearenses. 3. 1980's a música de rádio, Gil fazendo discoteca, caetano fazendo rock e o resto era rock praia, humor e filme de surfe. os titãs tavam ali nos 1980, tinha mais gente ali, legião também. claro que nos 1960 tinha jovem guarda que era louvação do motor e de uma juventude rock bosta engomadinha e pitbosta, mas como pensamento possível de revide, de propostas de fuga, era a nossa versão da canción protesta que tava valendo. e nos 1970 a mesma coisa, tinha um samba universitário politizado ali, mas nunca saiu dos subterrâneos. a galera escutava ivan lins, gonzaguinha e o fagner depois que se pasteurizou. e nos 1980 devia ter mais coisa interessante, eu que tô desatento. mas vale a hipótese: 1. a ideia era derrubar o regime, inclusive a partir da arte. 2. quando não deu veio a fossa e o desbunde, a negação de tudo, o epicurismo nosso. 3. quando ficou besta negar tudo, a moçada resolveu topar, só que sem se entregar completamente, ou até se entregando, mas tirando sarro de si mesmos por causa disso por o humor. 4. e ainda uma quarta preocupação, entrou a aparelhagem com força. em termos de textura muita coisa mudou, mas em estrutura musical, aqui se ousou pouco, né? ou tô falando só do mercado? aí levanto a lebre. apesar do humor que propunha o brecht, das murgas uruguaias, não será o humor um puto de um integrador? Ri aí um pouquinho enquanto a lama sobe, depois esquece. Não é complicado? Ou será que o humor era já porque a possibilidade de rir nos era dada já que o regime militar tava se desmontando, como um presságio?

quarta-feira

ALGUMAS NOTAS SOBRE "BLADE RUNNER"

1- só tinha visto o filme com 4 anos de idade, passando no corujão. finalmente consegui sentar e rever.
2- muito interessante como a crença no futuro era barroca: tudo, até as paredes, é cheio de texturas e funcionalidades de forma abarrotada e arabesca; tudo é escuro e sobreposto. mas não me engano, não havia só essa tendência. o filme tenta se filiar a um imaginário punk. filmes mais antigos como "thx 1138" do george lucas já trazem a ideia de "futuro de sucesso" que se difunde hoje: tudo branco, poucas formas, tudo clean. a impressão que tenho é que o clean ou o barroco são quase uma questão de classe: clean para os ricos e para o poder, barroco e apocalipse para os pobres.
3- por outro lado é legal entender que a ideia de avanço tecnológico ali não previa o virtual. apenas o mecânico e o genético. daí algo como tudo ser um bicho sujo multifuncional e incompreensível.
4- mas têm estética nisso: nosso ideário clean atual continua tendo muitas engrenagens e máquinas e fios. a diferença é que preferimos construir carenagens pra tampar isso. ou seja: o mundo de "blade runner" poderia ser o nosso se aquela sociedade tivesse a vontade de construir "roupas" para os seus utensílios, assim como fazemos latarias para os carros e eletrodomésticos. Mas eles, como em uma ode à tecnologia, preferem deixar tudo à mostra.
5- em 2019, ali, ainda era tranquilo correr atrás da mina, trancar a porta antes que ela saísse e pegá-la à força. nem os replicantes tinham sossego. o mais interessante é que o filme transmite isso como: o homem sabe que a mulher quer, por isso ele a força e então vivem felizes até o fim. Que coisa triste. E que coisa recente um sentimento mais compartilhado de que isso é triste.
sigo matutando

Leveza, ou Está a jogo ou a passeio?

Agora há pouco tava voltando da creche do Zoé. Comecei a sacar que a bike tava boa, rodando fácil. Saquei depois que na verdade era eu que tava dispostão, levinho. Entendi que devia ser porque ontem dei conta de uns pepinos, essa noite dormi bem, deu tudo certo de manhã aqui sozinho com o pequeno. Não era nada disso.
Eu tava sem mochila, sem nenhuma mochila. Sem relógio. Sem cadeirinha do Zoé, sem capacetinho, sem nenhuma sacolinha, sem a corrente da bicicleta atravessada nas costas. Eu tava só com os pedais embaixo dos pés. A sensação de leveza não era uma sensação. Era leveza mesmo, física. Menos peso envergando tudo. O que me deu uma sensação de leveza geral, de achar a vida boa. E foi só isso. Tirar um pouco do peso, quilos, das costas.Sou dessa moçada que leva até roupa extra dentro da mochila, geralmente enorme, com um guarda-chuva, com apagador, com uma posca que quase nunca uso, com um caderno médio, outro pequeno, cada um pra uma coisa. Um ou dois livros, dificilmente abertos no caminho, mas a esperança persiste. Sabem?
Aí me lembrei do Mukuka Xikrin, morador das terras afetadas por Belo Monte. Num debate que publicamos no Atual ele contava como foi a marcha para parar a construção da barragem: “Aí o pessoal, no dia 19, começou a arrumar as coisas, começou a pegar a farinha e sal, só isso. Índio quando vai pra guerra, não tem negócio de comer, não. Só come depois que ganhar a vitória.” Não levavam quase nada. Iam encostando e caçando, pescando, contou o Mukuka. Iam leves, e essa leveza não é nem paz nem fofura.
Depois me lembrei do Sergio Cohn – nunca vi de mochila – dizendo que nossa jornada é muito longa, muito difícil e que pra irmos com tudo que precisamos, deveríamos levar 80kg numa bolsa. Ele sacou que não daria pra ir muito longe, ou ia demorar. Entendeu que desses 80kg, tinha que escolher uns 20kg, imprescindíveis. O assunto com ele, numa conversa que já deve fazer uns três anos, era sobre bagagem... intelectual. Ele me explicava que tinha entendido que não daria pé ler tudo o que precisávamos, e elegeu coisas pra conhecer, essas foram levando pra outras, pra outras. Um quarto dos provimentos totais, aí sim, seguir caminho.

segunda-feira

Animalidade e viração no Centro de Arte Hélio Oiticica | Inscrições até 06/06/16


Os encontros acontecerão aos sábados e as vagas são limitadíssimas. Ao enviar o email de inscrição, você receberá um formulário. Preencha com atenção, as informações prestadas serão avaliadas para a pré-seleção. Os pré-selecionados serão convocados para entrevista nos dias 15 e 18 de junho. Os selecionados poderão frequentar as oficinas de manhã: 10h-13h; ou à tarde: 15h-18h. Vai ser bonito!

terça-feira

Debate Prêmio Pipa | 30-09 | 15h


Nessa quarta-feira, no Meuseu de Arte Moderna do Rio de Janeiro participarei de debate ao lado do companheiro de batalha Rafael Zacca para falar sobre coletivos, arte, cidade e convivência. Junto conosco estarão representantes do Museu Bispo do Rosário e da Bienal do Mercosul. Vai ser bonito. É a primeira vez que a Oficina  Experimental de Poesia participa de uma atividade no Museu. 

quarta-feira

20/08/15 | Baião de Spokens do Sesc Ipiranga


Nessa quinta-feira, estarei no Baião de Spokens, em São Paulo, no Sesc Ipiranga. Poema e brinquedo ao lado de Caco Pontes, Sandra X e Paulo Lins.

POESIA AGORA | 22 de junho | Museu da Língua Portuguesa-SP


Na segunda-feira, dia 22 de junho, acontecerá a abertura da exposição Poesia agora no Museu da Língua  Portuguesa, com curadoria de Lucas Viriato, Domingos Guimaraens e Yassu Nogushi. A mostra vem com o intuito de mapear a produção de poetas, coletivos e saraus em atividade principalmente na região sudeste. Meu poema "Autogiro", que faz parte do livro a serpentina nunca se desenrola até o fim no prelo com a 7letras, ganhou roupagem multimídia e faz parte da recolha. Toda semana um sarau se apresenta e seus integrantes conversarão com os presentes. Segue a programação.

- 11 de julho de 2015 > CEP 20.000 – Coordenação Ricardo Chacal (RJ)
- 25 de julho de 2015 > Sarau da Patuá – Coordenação Eduardo Lacerda (SP)
- 01 de agosto de 2015 > ECO – Performances Poéticas – Coordenação Laura Assis (MG)
- 15 de agosto de 2015 > Labirinto Poético — Éber Inácio (RJ) + Monique Nix (RJ)
- 29 de agosto de 2015 > Slam Poesia Agora — Coordenação de Yassu Noguchi (vários estados)
- 05 de setembro de 2015 > Sarau Casa das Rosas – Coordenação Frederico Barbosa (SP)
- 19 de setembro de 2015 > Guardanapos Poéticos — Daniel Viana (SP) +  Poesia Biossonora — Wilmar Silva de Andrade (MG)
- 26 de setembro de 2015 > Espaço Plástico Bolha — Coordenação João Moura Fernandes (RJ)

quinta-feira

Poema IV | O dia em que Bernardo da Mata riu na cadeia de Bauru


Procurei muito esse poema hoje na rede para mostrar ao Xandu dos Ratos, mas não encontrei inteiro. Esse post é só para isso, para arquivá-lo. É para mim dos poemas mais bonitos de Manoel de Barros e com certeza o primeiro que me encantou. Me lembro de ter chegado um dia à Cinelândia, ocupávamos as portas do teatro Dulcina, que há anos estava fechado. Levava impresso o meu livro Lagarta (2008), nunca publicado. Lá encontrei Bia Pimenta, que pediu para ver o encadernado, viu, leu uns três poemas e me disse: Você tem que ler Manoel de Barros. Nunca tinha ouvido falar no homem. Logo depois encontrei dois livros dele no Shopping Chão, na Glória, dois reais cada. Um deles, o Guardador de águas, publicado originalmente em 1989. Esse arquivo tem a ver com o Walter Benjamin: "também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer". É isso, trabalhar os arquivos como quem "desperta no passado as centelhas de esperança".* 

IV

Ele era o que era, esse cara
Tinha ouvido de coisas que ele ajuntava nos bolsos –
por forma que pentes, formigas de barranco, vidrinhos
de guardar moscas, selos, freios enferrujados, etc.
Coisas
Que ele apanhava nas ruínas e nos montes de borra de
mate (nos montes de borra de mate crescem abobreiras
debaixo das abobreiras sapatos e pregos engordam...)
De forma que recolhia coisas de nada, nadeiras, falas
De tontos, libélulas – coisas
Que o ensinavam a ser interior, como silêncio nos
retratos.
Até que de noite pôs uma pedra na cabeça e foi embora.
Estrelas passavam leite nas pedras que carregava.
Vagou transpedregoso anos.
Se soube que atravessou Paris de urina presa.
Estudou anacoreto.
Afez-se com as estrelas e o cheiro de ouro dos
escaravelhos.
Um dia chegou em casa árvore.
Deitou-se na raiz do muro, do mesmo jeito que um rio
fizesse para estar encostado em alguma pedra.
Boca não abriu mais?
Arbora em paredes podres.


O cara da foto é o Bernardo da Mata, é para ele esse poema e muito outros. Manoel de Barros viveu ao lado de Bernardo, essa história e outras podemos conhecer no filme Só dez por cento é mentira  Pedro Cezar. Achei, aqui, essa matéria sobre Manoel e Bernardo, escrita pela Ângela Kempfer e pelo Bosco Martins, vejam só um trecho sobre o tal Roupa-Grande: 

Certa vez, Bernardo foi trabalhar numa lancha de passageiros que fazia trajeto nos rios Paraguai e Taquari. Diversão dele era pescar, escamar peixes e rir. Bernardo ria muito. Ria sozinho. Ria a perder de vista….Quando enjoou da coisa, voltou pro Pantanal. É que na fazenda tinha o cantinho dele em cima de uma árvore. Uma cama de tábuas onde dormia horas, sem nunca despencar.
Da outra vez que Bernardo e o poeta se perderam quase foi para sempre… Foi quando ele se danou a andar pelo norte do Paraná, onde foi lidar com colheita de café. Mas de repente não se teve mais notícias dele…
Depois de longo tempo, toca o telefone no apartamento do poeta no Rio de Janeiro. Era um delegado de policia de Bauru, no estado de São Paulo. “Prendi um rapaz aqui que tá de porre e nunca para de rir”, disse o delegado. “Encontrei no bolso dele um papel todo amassado com esse numero de telefone. Por isso estou ligando”, emendou o policial do outro lado da linha.
“Segura ele ai que estou indo buscá-lo, agora Doutor! Esse rapaz é meu irmão, o Bernardão da Mata!”, exclamou o poeta, do outro lado da linha. Foram dois dias de viagem até reencontrar Bernardo. A viagem era de trem, do Rio a Bauru e de Bauru a Porto Esperança. Depois, de Porto Esperança a Corumbá a viagem de volta era de navio e o restante até a fazenda era feito de lancha.

* trechos retirados de "Sobre o conceito de história" em Mágia e Técnica, Arte e Política  de Walter Benjamin, publicado no Brasil pela Editora Brasiliense, em 1985.

quarta-feira

Quem tem medo do amigo fake?


Philippe Dias, 2015.
Não sei por que as pessoas têm tanto medo dos perfis falsos. Ninguém mais se lembra dos bate-papos do Uol, Bol, Mirc, Icq? Ali quase ninguém usava seus nomes, muito menos dizia de onde era, valia mesmo a noção de realidade virtual, éramos cretinos na vida e pessoas misteriosas e espirituosas na rede. Conversei com muita gente por aqui desde os 13 anos e aprendi muita coisa. Chegou um momento em que tivemos que expor nossas vidas completamente, nada podia ser escondido das lentes da máquina. A realidade virtual deixou de ser um mundo paralelo para ser o único mundo. E cá estamos confinados.
Philippe Dias, 2015.
Aí, quando aparece um perfil falso é um alvoroço, quem será Mônica Rosa, me perguntam, quem será Bia Frezza, quem serão cada um desses perfis que de repente nos adicionam, têm pouquíssimos amigos e ninguém nunca ouviu falar? Sim, temos todos um saco de plástico amarrado na cintura cheio de neuroses de segurança dentro. A TV diz, o caixa eletrônico diz: cuidado com quem compartilha suas informações. Mas as empresas adoram nossos dados, nos vendem coisas e dizem sempre: personalize seu perfil, ainda faltam 38 itens para você dizer com mais exatidão às pessoas seu verdadeiro eu. E assim tentam me vender sapatos, barcos, chaveiro 24h.
Talvez Mônicas, Bias, Abelhas, e caras brasileiros com o nome em cirílico estejam olhando com atenção para uma coisa que a rede tinha de interessante, eles estão escondendo um tanto, mostrando um tanto, como mágicos, como stripers comedidos. Talvez queiram deixar visível só um pedaço, um fetiche, construir uma rede específica, literatura, podolatria, relacionamentos mal resolvidos. Talvez eles estejam entendendo que liberdade é outra coisa, e estão botando pra quebrar no mistério e negando ao Big Brother as informações tão caras ao mercado. Ok, talvez sejam psicopatas. Ninguém ficaria surpreso, afinal estamos tão preparados para encontrar um, que achamos monótono quando nossa vida não é invadida por algum deles.

Os desenhos: "O desapego e a saudade são dois búfalos", Philippe Dias, 2015.

A festa pode organizar a casa? | 2º encontro do Fórum Permanente de Cultura do Rio de Janeiro

foto: Bernardo Guerreiro (fonte: vermelho.org)


Você tem coragem de limpar a casa, deixar algumas janelas abertas e sair, mesmo desconfiando que chova ou da vinda de um vento forte? O pensador Gershom Scholem escreveu sobre essa brisa anárquica que inquieta os donos de casa tradicionais. Deixar a janela aberta é um jeito de estar sempre disposto ao inesperado, não sabemos o que pode trazer. É como ter sempre um princípio desorganizador nos nossos planos, deixar sempre a brecha para que algo imprevisto aconteça, colocar um pouco de jogo, de sorte nos nossos cálculos. O imprevisível, para Russel Jacoby, é um dos princípios de um tipo de utopia, a utopia antiprojetista, ela não quer dizer como será o futuro, mas quer estar de ouvidos atentos a ele, preparada e trabalhando para melhor recebê-lo.
Na última quinta-feira, 05 de março, aconteceu o 2º encontro do Fórum Permanente da Cultura do Rio de Janeiro, estavam presentes os responsáveis pela pasta da cultura dos três níveis de governo, além de secretários do Ministério da Cultura e do presidente da Funarte. Por volta das 19h horas, na Fundição Progresso, boa parte dos articuladores da cultura da cidade e da baixada fluminense já estava presente. Sorriam, se cumprimentavam e propunham coisas uns aos outros. A finalidade do Fórum é pensar uma programação cultural para os Jogos Olímpicos. Alguns planos como uma marca comum, o trabalho conjugado entre cidade, estado e União, e a programação estender-se para a região metropolitana do Rio foram encaminhados.
A quantidade de verba para esse calendário ainda é desconhecida. Haverá alguma, prometeu o Ministro Juca Ferreira, mas, assim como os secretários Eva Doris (estado) e Marcelo Calero (município), alertou a todos que não é o dinheiro que gostaríamos. Ainda assim Juca Ferreira afirmou que a cultura era um compromisso de todos os presentes e que teríamos que trabalhar, mesmo com poucos recursos, não dá para abandonar o barco.
Segundo Eva Doris Rosental, não será possível restaurar o antigo Museu do Índio até 2016, prédio histórico que recentemente se tornou um núcleo de resistência indígena, mobilizando agentes de diversos setores e movimentos sociais, a Aldeia Maracanã. O restauro não virá, mas Eva reconhece a importância do prédio, por que não virá então? Eva Doris ainda criticou os produtores e MC’s que acreditam que são as UPP’s que decidem a cultura da favela. A secretária acredita ser reducionismo imaginar que um programa de segurança pública possa definir os acontecimentos culturais das regiões mais carentes da cidade. Apesar disso, os agentes culturais ligados ao funk insistiram, e isso ser de conhecimento de todos, que a presença das UPP’s cerceou em muitos aspectos a vida cultural das comunidades carentes, principalmente no que se refere à realização dos bailes funk. Ao que a secretária de Cultura do Estado respondeu afirmando se quisesse proibir os bailes não faria editais para eles acontecerem, e que 15 bailes já foram liberados. Há outra coisa que devemos deixar anotada para cobrar a secretária no futuro, ela disse que o Museu da Maré não irá fechar, será? Estamos atentos.
A segurança pública foi tema da fala de agentes culturais que veem altos investimentos destinados às UPP’s, mas não para a cultura. Marcus Faustini, articulador da Agência de Redes da Juventude, apontou que um dos problemas das pastas da Cultura é a falta de investimento em projetos culturais, “se podem cortar direitos trabalhistas, porque não cortar gastos com consultoria? Precisamos de dinheiro injetado na ponta do processo da cultura”.
Será que um fórum permanente de cultura deveria ficar restrito à programação cultural dos Jogos Olímpicos? Será que essa grande iniciativa de mobilização dos agentes culturais do Rio de Janeiro (havia cerca de 300 pessoas no palco principal da Fundição Progresso) tem que se centrar em um evento que durará um mês? Internacionalizar a cultura é importante, mas focar nossos esforços literalmente para inglês ver deve ser a prioridade de tal mobilização? Voltando ao título, será que uma festa pode organizar uma casa? Talvez sim. Se a expectativa da programação cultural dos Jogos Olímpicos serviu para convocar o Fórum, devemos aproveitar esse aparelho para fazer discussões profundas e fazer exigências para que a cultura seja pensada de forma ampla, todos os meses, não só visando junho de 2016.
Nem a indústria do entretenimento nem a cultura voltada para eventos podem pautar a discussão de artistas, produtores, educadores, pensadores e do próprio Estado. As culturas populares, as culturas locais, as culturas de invenção e mesmo a cultura erudita é que têm que receber mais atenção, afinal são processos e não eventos, fazem parte da vida diária de muita gente, são a parte da cultura em que o mercado não manda (apesar de tentar), elas é que tem que ser prioridade do estado.
Quanto ao Fórum de Permanente de Cultura do Rio, vamos trabalhar para deixar as janelas dele abertas, quem sabe não passa um vento e sacode tudo? Uma festa pode organizar a casa? Talvez sim. Aqui em casa, por exemplo, limpamos tudo antes da festa, durante a festa o encontro renova nossos laços, e depois dela, os que ficam, limpam-na novamente e ela fica bonitinha para começarmos bem o dia seguinte, mas nunca fechamos as janelas.

terça-feira

S.O.S Poesia no MAR - Museu de Arte do Rio


Nesse sábado acontecerá a abertura da intervenção S.O.S Poesia, de Renato Rezende e Dirk Vollenbroich, no Museu de Arte do Rio, o MAR. As luzes do Museu piscarão durante um mês em código morse, quem decodificar descobrirá poemas contemporâneos com temas políticos, dentre os quais um poema meu. No mesmo sábado o coletivo És uma Maluca completa um ano e a comemoração/exposição será realizada na sede do grupo, rua Teodoro da Silva, 383, Vila Isabel, Rio de Janeiro. Ainda nesse dia 7 de março, a revista Garupa lançará seu segundo número, a edição mais ou menos um, que vem com poema meu também. E é isso mesmo, tudo será no mesmo dia, na mesma hora e tentaremos nos desdobrar pra ver. Colo aqui o poema "Uma ponte, uma grande ponte", escrito do calor da hora das manifestações de 2013 e publicado originalmente da antologia digital Vinagre, uma antologia de poetas neobarracos, iniciativa de Eduardo Sterzi e Fabiano Calixto.


Aguarde veneno da água parada
                               Waly Salomão

e desligo a árvore final da paisagem
com a água
quase no ponto de virar mármore
                               Armando Freitas Filho

como extrair da brutalidade dos fatos
esse diagrama do futuro
onde se abre
aquela flor central
                               Marcelo Ariel

que se passa poeta
                adiaste o futuro?
                               Ferreira Gullar

no gado é que dormimos
e nele que acordamos
Carlos Drummond de Andrade

Hoje houve
um passeio
apinhado de gente
mas
a ilha acabou
e todos
marcharam parados

nas margens nas bordas no limite

apertando os pés
contra a ilha

pra lhes nascerem
asas
ou lama
e areia
virarem chão
batido

e excrescesse
soerguesse
envergasse

por cima da água

aumentasse
e mais
tanto

que a ilha
vendo o chão ir em frente
entre céu e oeste
andasse

fez-se um jardim colorido
pra chamar os marchadores
de volta

eles queriam o continente

serraram os pés de uns tantos

cicatrizava

e a verga tocou o outro lado
nomeou-se ponte
e a marcha atravessou
o mar

Rio de Janeiro, 14 de junho de 2013

em cinco capitais do país o movimento contra o aumento da passagem ganha força, é caluniado e sofre repressão severa.

Meu caminho tem cintura

com Matheus Juzé Mineiro

Tem canela e queixo
O mundo amassa seus dedos
Quebra dele as unhas

Utopias Ciganas | Panidrom

Utopia, animalidade, desastre e testemunho estão em Panidrom, todas as remoções numa só.
Panidrom é uma peça de trajeto, as cenas acontecem se formos atrás delas, como é habitual em companhias como o Teatro da Vertigem (BR3, Bom Retiro 958 metros) e a cia. São Jorge de Variedades (Barofonda). São dez atores em cena, seis músicos, um carro, mais diretores e dramaturgos, captadores de áudio e vídeo, iluminadores, fotógrafos, fazedores de gifs.

Para a construção de uma represa, um bairro será alagado. Seus moradores serão removidos e outros bairros do entorno já estão embaixo d’água. Um time padrão de desgraçados, crianças sem família, mendigos, loucos, prostitutas, usuários de drogas, famílias incompletas e gente sozinha dentro e fora das barrigas são atraídos e guiados a uma terra de promessa, seu nome é Panidrom.
Dentre os integrantes da peça está gente que vem testando a rua como suporte e objeto, como experimentação de formas de viver, saber, fazer e prazer. Gente como as artistas visuais Cassia Lyrio, Gaya Rachel e Brenno de Castro e os músicos Guilherme da Mata e Renan Montuno. Um stêncil de Cassia e Gaya que é encontrável pelas ruas do Rio traz duas mulheres de mãos dadas, pretas, velhas e pobres, cada uma com um facão na mão. Estão prontas e não têm medo. Essas duas mulheres estão também nos muros da Praia Vermelha. Marenka, uma das personagens da peça, poderia ser uma delas.
É interessante pensar também que de alguns anos pra cá a música e a cultura ciganas passaram a fazer parte da vida de alguns grupos das grandes cidades. A trilha da peça, vista ao vivo e em cortejo, tem matriz cigana. Não há como não ver nela a banda que acompanha os ladrões de banco nas primeiras cenas de Underground – Mentiras de Guerra, de Emir Kusturica. O nome Panidrom (estrada para a água) é uma referência ao filme Latcho Drom (rota segura) de Tony Gatlif, que mostra a diáspora do povo cigano desde a Índia até a Espanha e a transmissão dessa cultura às crianças. Como os ciganos, os habitantes de Panidrom não encontraram ainda seu lugar, são os eternamente removidos. Os atingidos por barragens, os perseguidos por grileiros urbanos e rurais, os removidos para os grandes eventos, as favelas incendiadas.
Marenka tem olheiras, carrega sacos de lixo, está grávida. Desconfiada e gritalhona, mas contente, segue o cortejo dos removidos, Peixe, Melanias, Puta, Zoé e sua irmã, Homem Chamado Cavalo. Um carro de som e um picareta profissional com ares de apresentador de programa de auditório é o chefe da excursão. Em nome da construção da represa, Lopez, o picareta, promete moradia, pilates, churrasco e vida mansa em Panidrom. Com ares de líder messiânico, congrega e convence os removidos, eles o seguem cantando, a banda faz parte dessa promessa.
Essa diáspora (cujo único porto aceitável é a miragem bíblica, a terra prometida, o sonho de bonança e leite e mel) me remeteu à outra peça montada na mesma praia, entre as universidades UNIRIO e UFRJ. Xambudo – outro lugar nenhum, texto de Aderbal Freire Filho e direção de Ticiano Diógenes, veio a público em 2010. Xambudo é um país. Num acontecimento mágico, uma ilha se desprende do continente e passa a navegar no rio da Prata, entre Brasil, Argentina e Uruguai. Um homem, uma mulher e um cachorro escrevem uma constituição e exigem reconhecimento de seu país recém fundado. O bordão que guardo de Xambudo: “o realismo fantástico é a saída política para a América Latina”. Panidrom-Xambudo, utopias. A diferença é que uma é autonomeada e autônoma (o único homem de Xambudo desafia os presidentes Menen, FHC e Sanguinetti a um duelo mano a mano, quem vencer decide se Xambudo é ou não um país), a outra é uma “mentira de guerra”. Panidrom é murada. Não tem casas, nem nada, só “Seco de céu da boca do bicho de ranço de nada”, diz Melanias. Não tem água, nada, os moradores começam a juntar cuspe num balde, “temos que economizar em tudo”, diz Marenka.
Assim como o stêncil, a música cigana, as peças de rua, a utopia e o como viver junto são temas recorrentes nas conversas e nas propostas artísticas que presencio por aí. Todos querem saber se ainda há forma de respirarmos tranquilos um dia. Em Panidrom não é diferente, é êxtase que carrega as pessoas atrás do carro de som, dançam como quem renasce, como quem conhece a fome e a sacia.
O que vem é o desastre, é mentira, não há terra boa, nem água, nem teto. Lopez, o picareta de auditório, tenta fugir mas é pego e feito prisioneiro. Começa a sobrevivência. Em assembleia, os novos moradores desse lugar sem casas decidem construir ali seu futuro, agregam o prisioneiro e começam as obras.
Januária guarda um saco de terra da casa antiga, guarda bonecas, flores, caixas de pessoas que podem voltar, podem sentir falta daquilo. Januária é a sobrevivente que quer montar a memória dos seus, como os sobreviventes dos campos de concentração, cheios de óculos e anéis nos bolsos, queriam levar adiante a história das vítimas, outras pessoas precisavam saber o que aconteceu. Januária é Yuri Firmeza enchendo o MAR de escombros dos removidos do Morro da Providência, de removidos do Morro do Castelo. Januária é a memória de todos os removidos de todos os tempos, o fio colado a todas as diásporas. “Aqui as mulheres tem que se ajudar e os homens tem que ser menos homens”, conclama na assembleia.
Mas chega a fome, o delírio, a desigualdade. A Puta é apedrejada. O Melanias foge. Zoé é criança, especula outras dez futuras remoções e enlouquece, se esconde para sempre numa “árvore imortal de frutos infinitos”. Não à toa é zoé – a vida fora das regras, fora das classificações, o caos que somos todos, plantas, bichos –; ao perceber seu lugar de desempoderada, seu lugar de ser fome e sede, Zoé não topa as regras, vira bicho, planta, nunca mais desce, só fugindo Zoé continua sendo zoé.
O Homem Chamado Cavalo (nome de batismo feito de um verso de Stela do Patrocínio, poeta, preta e profética, dado ao personagem preto, poeta e profético enrolado em cobertor azul, “escolhi o azul porque o azul estava desprezado, meu tênis já é vermelho, por que eu ia querer o manto vermelho? era mais bonito, mas o azul é que ninguém queria, eu quis”) toma a Puta por santa mãe e quer que ela o abençoe, sua forma de pedir a bênção e o furor da sua fé são tão violentos quanto as pedras.
O peixe tem convulsões por estar fora d’água, ao receber o cuspe de seus patrícios e ficar molhado novamente, sobrevive, se levanta, puto, cospe em Marenka. Começa o trabalho de parto, mas Melanias volta com novidades de sua fuga, o filho de Marenka não será habitante de Panidrom.

Talvez a utopia seja mesmo a dos piratas, a dos ciganos, a utopia de Pinto Calçudo, personagem de Serafim Ponte Grande de Oswald, que comanda El Durazno, um barco república para habitantes sem calças que navega os sete mares e para apenas para recarregar-se de abacates. A utopia dos ciganos, que nunca estão em casa, sempre inventando a forma seguinte de viver, num lugar novo, num outro possível. Os ciganos armam tenda para desarmar. A utopia de Panidrom é a do perecível, a do “ainda não terminou”, é incompletude, é precariedade, e o sempre inacabado. Taraf de Haidouks ao fundo. Veja fotos, a equipe, o processo e gifs fantásticos aqui: http://panidrom.wix.com/site

Serviço:
Direção: João Pedro Orban
Texto: Clarice Lissovsky e Tomás Braune 
Piscina do Campus Praia Vermelha da UFRJ
16/12/2014, 20h
Gifs: Brenno de Castro

sexta-feira

O caminho é meu sapato

amarrado ao meu caminho
se o caminho olha pro lado
faço mais um nó no laço

quarta-feira

Urologista 26/11, 13:40 – Hospital de Acari

Banda corrida até a UERJ, por dentro, metrô maracanã, de pé, beleza, não tem recarga do rio card, sentido pavuna, luzinhas piscando nas setinhas até a fazenda botafogo. Desço. Dá pra ver o hospital de dentro da estação. Na frente, nos trêileres, três caras do core, de preto, monstruosamente musculosos, monstruosamente tudo, de armadura, fuzil, tudo. Na frente do hospital muita gente, um silêncio esquisito, um monte de carros da polícia civil. 

Clínica da família, ao lado a entrada do hospital. Subo as escadas ouvindo: isso mesmo, passa reto, nem olha, olha lá, fez igual eu falei. Eram uns dez adolescentes perto do portão, esperavam. No hall, muitos policiais, caras sem uniformes, mas policiais também, cara de gárgula pra quem entrasse. Resolvi passar. Os distintivos, os funcionários com cara de protocolo. A recepcionista: direita, direita, identidade na mão, primeira porta de vidro, balcão de confirmação. 

Saio, mais carros da polícia e reportagem. Contorno, acho o balcão. A balconista: o médico atrasou muito, estamos remarcando, sai por essa porta, passa a outra porta de vidro, a lanchonete, entra na porta marcação de consulta. Saio, vejo as pessoas agora como se esperassem um pronunciamento, na porta, se apertando. Os meninos do portão também estavam lá. Me olharam, caminhei em direção a eles. Que houve? Mataram uma menina. Aqui? Aqui, na nossa favela, aqui atrás. Foi tiroteio? Foi, mas quem matou foi a polícia. Nunca vi fuzil assim de monte no hospital. É, sorriu, parece Afeganistão. Tio, dá um guaranazinho. Eu, será? Dou não, vim pro médico, ele ficou com medo dos tiros, vou ali remarcar. Todos ficaram, nenhum veio hoje. Valeu, já volto.

Na marcação de consultas cinco moças, um cd evangélico de presente, uma bem magra, batom forte e cabelo loiro encaracolado até o pescoço. Uma só atendia. As outras pensavam, falavam, o arroz estava velho, a mais alta não conseguiu comer. A do batom: identidade, encaminhamento, diferente, bonito seu nome, dia 1/12, 8h, pra você também.

Os dez tavam me esperando quando saí, sorriam porque esperavam. Me juntei. Qual foi? E o guaraná? Sem guaraná, o bagulho tá louco. Tranquilo. Enquanto tu tava lá levaram o corpo. Chegou mais um. Mas tá vivo ainda. Então, como vai ser? Esse monte de polícia vai sair correndo na hora que o bonde chegar. Vai vir? Vão descer. Falaram. Aqui pro hospital? Não sei. Acho que sim. Saquei, vão ficar? Vamo. Vou nessa, segunda eu volto. Valeu, tio. Valeu. Valeu.

segunda-feira

A floresta

erva daninha na ponta  do dedo
........................se enrosca
...........pelo corpo inteiro
......o dente com folha
a língua é só verde
........é tarde
........cai a pele
........é ranhura e raiz no meu peito

no ombro um tanto de barro
joão-de-barro se apressa no ninho
árvore porque sou o que está na cabeça
e a floresta me tomou dormindo

a família na planta mais milho
o cedro é móvel bonito
o gado pastou todo o mapa

o Brasil é um jardim de eucalipto

*poema de 2007, publicado no meu primeiro livreto, "Neuronóseles", edição Cep20000, ilustração Philippe Dias.

Trouxe ele pra cá porque estamos em eleição presidencial, uma das candidatas está posando com Kátia Abreu e Blairo Maggi, monstros da madeira, da soja, do gado e da moto-serra. O outro quer tirar autonomia da FUNAI para demarcação de terras indígenas em função de litígios com agricultores que alegam habitar legalmente essas terras. Nenhum branco tem terras legais no Brasil, o que muda é a data em que ela foi roubada dos índios de 1500 pra cá.

quarta-feira

Relançamento livro "sópro sôpro" em São Paulo, 10/10, 19h30

Nessa sexta-feira, dia 10, estarei no sesc campo limpo relançando o meu "sopro sopro", livro de estreia, de 2010, ao lado dos outros mais de 20 livros da coleção Edições Maloqueiristas. Nos vemos lá. Vai ser bonito

Com ilustrações de Philippe Dias e projeto Gráfica de Victor Meira, o libro tem 96 páginas e comentários de poetas como Afonso Henriques Neto e Renato Rezende. Entre 2010 e 2012 o livro andou pelo Rio e por São Paulo, com cerca de 400 exemplares impressos e mais de mil downloads. Agora serão feitas novas 500 cópias que serão distribuídas entre escolas, bibliotecas e livrarias.

terça-feira

Pré-venda do meu livro até 05/09/2014


Manos e manas, depois de quatro anos sem publicar poesia, aí vem um bicho que fiz junto com a Editora Cozinha Experimental. Ele já está na gráfica e fica pronto em uns dias. Deve ser lançado no meio de setembro.


Pros amigos que querem o livro e estão fora do Rio ou que não poderão vir ao lançamento, penso em enviar pelo correio. 

O preço é $25. 

Avisem do interesse que mando a conta pra depósito e, logo que chegar o malote, mando com beijo de batom pra vocês. O email é o meio mas eficaz: heykpimenta@gmail.com

Os livros são assim: os primeiros 100 são impressos em gráfica e costurados, serigrafados e encapados à mão, esses são pra quem vier ao lançamento. Se sobrarem, entram no malote também. Do 101 em diante eles têm o mesmo conteúdo, mas o acabamento é mecânico.

É um livro de 50 páginas, faz parte da Coleção Kraft, da Editora Cozinha Experimental. O plano da coleção é fazer a primeira recolha oficial de dez poetas, o meu é o quarto.

Espero que gostem do plano, é um jeito de a gente sem encontrar apesar da distância. Um abraço

quinta-feira

Meu lugar

faz alguns anos que virei seu secretário
no começo queria
ser jogador
de azar

e não encaçapava
não carteava
nem tarô

tentei os golpes
mas virei seu secretário

digo residência oficial do bispo do rio de janeiro
digo casa de aborto feto feliz
digo depósito de óleo de fígado de bacalhau

e desligam
minha pequena crueldade

separo as manchetes
compro bilhetes
invento fofocas sobre a concorrência

assim você viaja em paz
queria mesmo ganhar um milhão
crédito do desenho no cabeçalho: dos meses duro, nanquim sobre papel, 2010 Philippe Bacana